VII COLÓQUIO DA ESCOLA DE PSICANÁLISE DOS FÓRUNS DO CAMPO LACANIANO – REDE DIAGONAL BRASIL
A clínica do desejo
“Ter levado uma análise a seu termo nada mais é do que ter encontrado esse limite onde toda a problemática do desejo se coloca”. (Lacan, 1988, p. 359)
Essa frase de Lacan lança inúmeros desdobramentos ao tema desse Colóquio que traz em cena “A clínica do desejo” e não qualquer outra. Clínica inventada por Freud que subverte desde então o modo de operar da clínica médica, incluindo a psiquiátrica, ao colocar em cena uma concepção inédita de desejo e sintoma. Tornando-o um operador clínico fundamental que permite demonstrar a presença do inconsciente e sua relação com o desejo, Freud atém-se também à presença do desejo na inibição e na angústia em diferentes estruturas clínicas. O mesmo se dá em relação aos sonhos, atos falhos e chistes com sua estrutura linguageira.
Em seu paradigma das primeiras experiências de satisfação (1905), ele salienta o descompasso entre desejo e realidade, a inexistência de um objeto adequado para satisfazê-lo, marcando seu caráter alucinatório. Indestrutível, presença efetiva, mas enigmática, inominável, o desejo repete-se pelas vias da demanda, insistência própria ao inconsciente, mas não sem seus extravios que criam paradoxos. O principal deles foi articulado por Freud como “resistência terapêutica negativa”; obstáculo decidido à cura. Lemos com Lacan, “o sujeito cede de seu desejo”.
Lacan, por sua vez, da um tratamento lógico à relação do desejo e linguagem. Trago-lhes pequenos recortes. Das indicações sobre o caráter metonímico do desejo, presente no discurso da demanda, destaco a definição de desejo de 1960 “metonímia de nosso ser” (Lacan, 1988, p. 385) que permite apreender uma virada clínica importante. Ao alinhar, anos depois, o ser ao gozo ele abre outras perspectivas à clínica do desejo. O objeto a, causa do desejo, articula-se ao gozo. Apesar de desejo e gozo serem distintos, afirma Soler, “(…)uma falta é uma negatividade, ela dinamiza, um gozo é uma positividade, ele fixa, falta e gozo não fazem um (…), eles não se excluem(…) quando o dizer faz nó, eles colaboram, somam-se” (Soler, 2014, p. 76)
Em RSI (1974-1975) Lacan propõe uma estrutura borromeana para o desejo, articulando-o com a inibição, sintoma e angústia. Na inibição o imaginário invade o simbólico, no sintoma o simbólico invade o real e na angústia o real invade o imaginário. Encontra-se ainda em causa o gozo opaco ao sentido, acossado ao inconsciente real, com efeitos sobre a clínica e a questão do desejo de analista.
Na contingência do dizer um desejo pode se tornar um acontecimento. Se o “desejo como efeito não é acontecimento, o desejo que sustenta o dizer é o justo contrário de um efeito, ele é acontecimento e, como tal, não se pode deduzi-lo.” (Soler, p. 77). Porque, o desejo de analista não é “um simples efeito de uma análise”, mas um acontecimento, uma contingência, do que “foi desvelado em uma análise”. (Ibidem). Desejo prevenido por não desconhecer sua causa, o real como limite e o real fora de qualquer sentido. Isso abre uma questão ética.
Em A ética da psicanálise Lacan dispõe proposições que ressoam, após muitos anos: “(…) a única coisa da qual se possa ser culpado, pelo menos na perspectiva analítica, é de ter cedido de seu desejo” (Lacan, 1988, p.382). E sob forma de pergunta: “Agiste conforme seu desejo?” Encontra-se aí a responsabilidade subjetiva advinda de uma análise e as respostas possíveis que a clínica do desejo pode dar ao domínio da satisfação sem limites utilizada pelo mercado dos bens para mascarar a causa do desejo.
Ângela Mucida – AME. EPFCL-RDB
Pela Comissão Científica do VII Colóquio.
Referências bibliográficas
FREUD, S. A interpretação dos sonhos. In: ESB das obras de S. Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1972.
———-Análise terminável e interminável. In: ESB das obras de S. Freud. Rio de Janeiro: Imago,1975.
LACAN, J. Le séminaire. Livre VI, Le désir et son interpretation (1958-1959). Paris: Éditions de la Martiniére e C.F, 2013.
————. O seminário. Livro 7. A ética da psicanálise. (1959-1960). RJ, Zahar, 1988.
————-. Autres écrits. Paris: Éditions du Seuil, 2001.
————-. O Seminário. Livro 20. Mais ainda (1972-1973). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
————– Lacan, J. (1974-1975). R.S.I, inédito.
SOLER, C. O desejo pego pelo… In: Heteridade. Revista de psicanálise. IF-EPFCL, 2014, Vol 11.



























