VII COLÓQUIO EPFCL-RDB
PRELÚDIO I
Clínica ou experiência do desejo – a interpretação e o real
Um jovem cuja queixa era a dificuldade em abordar as mulheres que mais lhe interessavam, relata um encontro com uma moça que desperta seu desejo. A conversa entre eles corria solta, sedutoramente, mas também desafiadora, mas, em um certo ponto da conversa, “ela se levantou, foi embora e eu recebi um xeque-mate”. Diante da intervenção do analista: “Cheque o quê? Mate quem?”, cai na gargalhada e conclui: “morto pela rainha!”. Algo do real fora alcançado. Nesse ponto em que o desejo se manifesta, o objeto a é a chave real na travessia da fantasia.
Lacan sinaliza a afânise do sujeito. O sujeito, representado na cadeia associativa, apaga-se, manifestando a surpresa. Instante do real em que o objeto se perde. Objeto aliado à falta estrutural do desejo e um ponto de gozo irredutível. Uma disjunção entre fala e gozo, onde o sujeito iguala-se à causa de desejo que ele foi para o Outro, balizado pela estrutura da fantasia.
O objeto a é o portador da divisão do sujeito, portador da causa. O lugar de causa é um enigma para o sujeito. A questão posta ao analisante – Che voui? – traz ressonâncias do enigma que irrompem sob “o que sou?”, “quem sou”? até o ponto em que o próprio sujeito se encontre como causa do desejo
Em De um Outro ao outro Lacan afirma que “(…) a essência da teoria psicanalítica é um discurso sem fala” (p.11). Acrescentando: “é somente no fora de sentido dos ditos que existo como pensamento[…] Em meu ato, não almejo exprimi-lo, mas causá-lo” (p. 13). O desejo inconsciente precisa de tempo para se manifestar, precisa ser causado. A interpretação visa a causa para verificar seus efeitos no real da estrutura linguageira. Como alcançá-lo?
Desde 1951 em “Intervenção sobre a transferência”, Lacan se questiona o que seria interpretar na transferência, definindo-a: “a transferência não é nada de real no sujeito senão o aparecimento, num momento de estagnação da dialética analítica, dos modos permanentes pelos quais ela constitui seus objetos” (Escritos, 1998, p.224). Interpretar na transferência é “nada além de preencher com um engodo o vazio dos pontos mortos” (p.225). Esse engodo é necessário para reativar o processo da experiência analítica.
Em “A direção do tratamento e os princípios de seu poder”, apoiando-se na doutrina do significante, Lacan sugere as regras da interpretação. A direção do tratamento vai da retificação das relações do sujeito com o real, ao desenvolvimento da transferência, do SsS, à experiência analítica com a interpretação como ato. Em “O Aturdito” (Lacan, Outros escritos, 2003) fará alusões a essas regras, agora sob o foco do equívoco para que a interpretação provoque ondas.
A partir de 1970, Lacan introduz outras formas de pensar a interpretação. Em L´insu… (11/01/77) ele afirma que enquanto a significação supõe a decifração, o sentido é ambíguo, é duplo sentido ou não-senso. Um significante em sua essência só pode ser encarado como um corte. Em O Sinthoma, ele diz: “é unicamente pelo equívoco que a interpretação opera” (p.18), sinalizando os efeitos do inconsciente real. “Sendo o real desprovido de sentido, não estou certo de que o sentido desse real não poderia se esclarecer ao ser tomado por nada menos que um sinthoma” (p.131). A distinção entre significação e sentido recai respectivamente na diferença entre o dito e o dizer, lugar da diz-mensão e enunciação.
O analisável já está articulado no mais singular da história do sujeito. Ao recalcar a verdade, o sujeito não a governa mais, não está mais no centro do seu discurso. O desejo continua sendo articulável nas entrelinhas para além do sujeito, ou seja, “desejo no inconsciente” e no nó do desejo: imaginário, simbólico e real.
Em O avesso da psicanálise (p.35), Lacan destaca as modalidades do dizer, equivalendo-o à interpretação. Essa equivalência reedita o ato como intérprete, tornando a interpretação correlata ao lugar do analista como Sujeito suposto Saber. O SsS endereça-se àquilo que está no âmago do ser. Uma busca de significação visando o enigma do sujeito e a opacidade de seu sinthoma. Para Lacan o que importa na experiência de análise é “quem diz? O que quer dizer com aquele dito?”. Estaria Lacan evocando o enigma que retorna ao sujeito como questão pelo Che vuoi?
O desejo do analista visa preservar um ponto de origem não identificável. Afirmação ou negação, não admite nenhuma réplica. Provoca surpresa. A interpretação do analista encontra-se na contramão da significação e da decifração. Ao exceder o dito, ex-sistindo aos ditos, o equívoco faz inscrição do que em lalíngua é impossível de dizer. “O equívoco é a arma contra o sinthoma” (Lacan, O sinthoma, p.18). A interpretação visa a significação dos sintomas até restar apenas vestígios de um gozo-sentido. Como chegar a esse real impossível de dizer que sempre retorna? Como alcançar o real do gozo pela fala? Lacan nos orienta em “Radiofonia”: “Fazer o gozo passar para o inconsciente, isto é, para a contabilidade, é, de fato, um deslocamento danado” (Lacan, 2001, p.418). E o desejo o que é senão um desejar, um permanente desejar dizer?
Eliane Z. Schermann—AME- EPFCL- RDB
Referências Bibliográficas






