A “PAI-VERSÃO”: DESEJO E GOZO
Lacan, desde o início até o final do seu ensino, manteve a tese de que a linguagem engendra a causa do desejo, não o Pai, seguindo com o que denominou o além do Édipo sustentando o laço entre desejo e gozo
Se na metáfora paterna o Pai fora colocado como um significante do Outro, da lei do Outro, resultando no significante fálico como o significante do desejo, neste momento, Lacan incluirá na questão do Pai a relação homem e mulher. No além do Édipo a função do Pai é disjunta da estrutura da família tradicional.
Para Lacan, o Outro é barrado, “não há relação [rapport] sexual subtendendo que ela não possa ser inscrita em nenhum discurso uma vez que não há significante que designe o que é uma mulher. Recusa então, o universal da função paterna no que diz respeito à orientação dos desejos sexuados, pois isso não responde à questão do gozo (SOLER apud FINGERMANN, 2014). O objeto a, causa do desejo, passa a ser articulado ao gozo como o mais-de-gozar.
Soler (apud FINGERMANN, 2014) afirma que a questão é saber o que é que preside, para cada um, as vias de seu próprio desejo respondendo que pode ser o modelo paterno. Trata-se então, “apenas de uma solução entre outras possíveis, donde a fórmula que diz que a função do Pai é uma versão de sintoma: père-version [pai-versão/perversão]” (Idem, p. 2).
Lacan nos apresenta a noção de père-version [pai-versão]: “a pai-versão é a sanção do fato de que Freud faz tudo se apoiar na função do Pai. E o nó bo é isso” (LACAN, 2007, p.146), referindo-se ao nó borromeano. Faz então, um equívoco com os termos père-version [pai-versão] e perversion [perversão] e que isso “quer dizer apenas versão [version] em direção [vers] ao pai [père], que, em suma, o pai é um sintoma, ou um sinthoma, se quiserem” (idem, 2007, p. 21), portanto, versão Pai-sinthoma.
No R.S.I. (LACAN, 1974-1975), o Pai não vale se não for lastrado pela causa do seu desejo:
“Um pai só tem direito ao respeito, senão ao amor, se o-dito amor, o-dito respeito estiver, vocês não vão acreditar em suas orelhas, père-vertidamente [père-versement] orientado, isto é, feito de uma mulher, objeto pequeno a que causa seu desejo (Aula de 21/01/75)”.
Portanto, localiza em uma mulher o mais particular do seu gozo, o gozo fixado em sua fantasia.
Lacan avança no R.S.I. (1974-1975), agora situando a mulher nessa relação e o que ela a-colhe: “do que ela se ocupa, são outros objetos pequeno a que são as crianças junto a quem o pai intervém, excepcionalmente, no bom caso, para manter a repressão […]” (Aula de 21/01/75).
O Pai, orientado pela causa do seu desejo, divide sua parceira entre mulher e mãe. A mulher se divide entre mãe que se ocupa de seus objetos e objeto causa de desejo do homem conforme a fantasia deste, a partir da sua própria fantasia (SAURET, 1997). Portanto, para que haja um sujeito é preciso que um homem e uma mulher saibam funcionar como pai e mãe, nessa versão do Pai-sinthoma.
O pai por ser implicado na função transmite ao sujeito, filho desse encontro, algo de uma versão: “a-pai-versão do desejo” (Idem, 1997, p.36); transmitindo-a com o enigma de um desejo, um gozo irredutível. A père-version, a versão em direção ao Pai, é para ser entendida como o sujeito se arranja com o gozo do Pai na relação com a linguagem.
É preciso destacar que Lacan aponta que a única garantia de sua função de um pai a função sinthoma, é que, querendo ou não, ele dispense cuidados paternos aos seus filhos. Esta é lei do amor – a pai-versão e, “para isto, basta que ele seja um modelo da função. Aí está o que deve ser um pai, na medida em que só pode ser exceção” (LACAN, 1974-1975, aula de 21/01/75).
Para que “a exceção paterna possa ser encontrada em alguém, esse alguém não deve ser um qualquer, ele deve preencher duas condições: a primeira é […] o desejo por uma mulher, a mulher do pai; a segunda, que é capital, é que ele tenha cuidado paterno com os filhos que ela lhe faz”, segundo Soler (2012, p. 176).
Em outro momento ela sinaliza que o “cuidado paterno só pode ser o cuidado da nomeação constituinte da linhagem, já que, na mesma época, Lacan falava conjuntamente do pai, que é pai do nome” (SOLER, 2018, p. 92), O dizer que é Pai, não seu significante, como índice e condição de um desejo que não seja a-nônimo e que tira os filhos da condição de anonimato, tornando possível a humanização do desejo. A única presença exigível é a do dizer que nomeia, pois a linguagem veicula os desejos e gozos desde o começo para um sujeito (SOLER, 2012).
Concluo, retomando Soler (2014, p. 76): desejo e gozo “não se excluem (…) quando o dizer faz nó, eles colaboram, somam-se”, portanto, é impossível situar o desejo sem o nó borromeano, pois ele é impensável sem o real.
ROSELI RODELLA – AME da EPFCL-RDB – Aracaju
REFERÊNCIAS
LACAN, J. (1974-1975). O seminário: livro 22: R. S. I. Aula de 21/01/75. (inédito).
________. (1975-1976). O seminário: livro 23: O Sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007.
SAURET, M-J. O infantil e a estrutura. Conferências em São Paulo – E. B. P. São Paulo, 1997.
SOLER, C. Lacan, o inconsciente reinventado. Rio de Janeiro: Cia de Freud, 2012.
________. O desejo pego pelo…In: Heteridade. Revista de psicanálise. IF-EPFCL, 2014, vol. 11.
________. Lacan, leitor de Joyce. São Paulo: Aller Editora, 2018.
FINGERMANN, Dominique. Entrevista com Colette Soler. Stylus (Rio J.), Rio de Janeiro, n. 28, p.133-137, jun. 2014.Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1676-157X2014000100014&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 01 set. 2023.







