Prelúdio VII
Transformações do saber na escola de Freud e Lacan
Gabriel Lombardi¹
Na sua 6ª Conferência introdutória, “Premissas e técnica da interpretação”, Freud considerou muito provável que haja no sonhador um saber sobre o seu sonho e que se trate apenas, na análise, de possibilitar-lhe descobrir o seu saber, tornando-se porta-voz da sua manifestação. Ele acrescenta então: “Ignoramos a diferença entre ele acreditar saber algo ou não acreditar, e tratamos ambos os casos como um só”. Para Freud, o inconsciente guarda um saber que precede a consciência do sujeito.
Ele lembra então o caso de um nome conhecido e, no entanto, esquecido, que se mostra desesperadoramente inacessível. Essa qualidade do saber resulta ser em grande parte inacessível, atraído até mesmo por um recalque primordial, e é elaborada pacientemente por Lacan a partir da simples articulação significante, entre um significante e outro. É a partir daí que ele define o saber como mera articulação significante.
É obra da transferência envolver o sujeito nessa articulação do saber. A partir dela, o significante representa o sujeito para o Outro… significante, Outro que apenas por equivocação o analista personifica. A análise pode ser definida, então, como a confrontação do sujeito com certos pontos em que o significante que o representa não encontra onde se inscrever, diante de quem representá-lo enquanto sujeito. Em vez de seu lugar de representação, sob a forma do S2, faz-se presente o que vem ao lugar da representação onde não há representação, a manifestação psíquica de uma pulsão sexual. Esses pontos de carência do Outro significante aos quais se chega por meio da transferência permitem a coincidência entre o que no significante impulsiona e o que no Outro se revela por carência, o desejo. Assim, entre o significante que impulsiona e o desejo que responde, revela-se o que para o humano vem ao lugar do instinto genital perdido pelo acesso à linguagem. A transferência conduz assim à realidade do que suplanta o saber inconsciente: que o saber não só não garante a relação sexual, mas que, ao contrário, a condena a um fracasso quase sempre garantido. Apenas a contingência do encontro pode atenuar a impossibilidade lógica da realização sexual genital.
Esses pontos, em que a articulação não se produz porque não existe, são indicados no sintoma e nas formações do inconsciente, onde Lacan ensina que o significante não está encadeado no simbólico, mas solto, num real sem lei. São esses casos em que há o Um, mas não há nenhum Outro. Os exemplos abundam na clínica analítica, desde a alucinação e a intuição delirante até ao acting out, qualquer passagem ao ato e até mesmo o ato do analista.
A chamada formação do analista consiste numa subversão da relação do falante com o saber que lhe permite ativar a descoberta desses pontos onde reside uma existência real que ele pode tornar sua, na falha da articulação do saber: entre a pulsão e a perda do seu objeto, entre a demanda e o desejo.
É por isso que a chamada “formação” do analista passa pela exploração do saber a partir das “formações” do inconsciente na sua análise, e consiste numa conversão da sua posição em relação ao saber. Por trás do sintoma, estão as fantasias e, por trás, está o recalque. E, por trás do recalque, está o horror ao saber, que o recalque previne. Porque o saber implica a queda do Outro, o confronto com o sexo e a morte, sob a figura freudiana da castração, inscreve-se na estrutura como significante da falta do Outro S(A). Voltando a Freud, o recalque secundário encobre outra falta primordial, determinada pela ausência de uma pulsão genital completa (Ganze Sexualstrebung) descoberta por ele e pela não relação sexual e a inexistência do conceito de Amulher deduzidos por Lacan.
O horror ao saber, o não querer saber em diversos sentidos (o do recalque, o da Verwerfung, o da Verneinung, o da Verleugnung), responde à pergunta e à angústia diante da falta de articulação do mesmo que retorna. O ato do analista, que pode arrancar dessa angústia a certeza, faz parte do percurso que costuma ser chamado de formação do analista.
Em resumo, a psicanálise é uma investigação e talvez uma mudança na relação do sujeito com o saber enquanto articulação significante; tendo em conta os pontos em que essa articulação não existe – ali onde o significante se inscreve como “substância gozante”. Não querer saber (recalque), semblante de saber (universidade), amor equívoco ao saber (transferência), horror ao saber (contratransferência), indicação de saber inerente ao sintoma (clínica), angústia e desejo de saber (ato analítico) são algumas das posições através das quais transcorre essa “formação” do analista a partir de sua própria experiência de análise, controle e outros procedimentos didáticos. Esse leque de posições em relação ao saber inconsciente é particularmente sensível nos testemunhos que recebe, através dos passadores, o cartel do passe.
Assinalemos também algumas das causas da “deformação” do analisante, que costumam dificultar a sua passagem ao desejo da análise: por exemplo, a cristalização numa posição histérica rígida que comanda o senhor a saber; e a do semblante de ficar muito preso ao discurso universitário – do qual tanto Freud como Lacan se mantiveram à margem.
Assim, depois de passar pela transferência e pelo ato do analista, podemos voltar à ética incluída na po(ética) interpretante da análise. As formações do inconsciente abundam em tropos e figuras que se aproximam da poética, mas o que vale não é o do poeta como agente, mas o do poema, que se escreve como resultado da troca dialógica entre as associações do analisante e as figuras interpretativas e as síncopes discursivas do analista. “Onde o Isso era, o Eu deve advir”, escreveu Freud, aludindo ao saber e ao bem dizer que resulta desse advir. Rimbaud disse isso com maior beleza e precisão, não como uma intimidação moral, mas preocupado com um poema que o transforma e o liberta: Je est un autre. Si le cuivre s’éveille clairon, il n’y a rien de sa faute. “Eu sou um outro. Se o cobre torna-se clarim, não é sua culpa.”
A interpretação que conta na análise é menos a que decifra o sentido do que aquela que desperta as ressonâncias da palavra, convidando-a a visitar o purgatório tempestuoso da análise para sair livre de culpa e acusação; apenas responsável por seus atos e decisões atuais. A destituição subjetiva não deterá o inocente, escreveu Lacan, que não tem outra lei que o seu desejo.
O dispositivo do passe permite explorar se o percurso do analisante alcançou ou não um desejo de saber capaz de superar o horror diante do saber manifestado na sua própria experiência de análise. E mais ainda, a figura do passador traz consigo a questão, que deve ser levada em conta para sua designação como tal, se o desejo de saber que ele alcançou pode ser idôneo para localizar outros saberes inconscientes, particularmente o do passante.
Lacan coloca para o passador a questão do analista em ato: supera-se o horror de saber e encontra-se o desejo de localizar outros saberes inconscientes? Não sem certa angústia prévia, talvez, e, em qualquer caso, bem-vinda seja a certeza da angústia como oportunidade de tomar impulso para atravessar o limiar invocante do dizer.
Talvez o ajude o sabor pulsional que resta, o gosto que encontra em provar esse saber. Sapere é a raiz latina comum a sabor e saber. Se o bem-dizer satis-faz, ou seja, é suficiente, então é provável que, como analista em exercício, possa saborear o fruto do saber. A sua análise deve tê-lo alertado que provar a fruição do saber acarreta a queda do paraíso, a introdução do sexo que fala, cuja mera presença prevê a morte do corpo falante como indivíduo. Mas, em geral, o fim da análise e a realização do desejo que ela acarreta precedem a morte biológica. Tipicamente, por sorte.
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¹ Psicanalista, AME da EPFCL.







