Prelúdio V
Ética do desejo: uma ética convertida ao silêncio
Silvia Amoedo¹
“Ouve-me, ouve o meu silêncio. O que falo nunca é o que falo e sim outra coisa”. Clarice Lispector
Se sempre voltamos a Freud, diz Lacan, “é porque ele partiu de uma intuição inicial, central, que é de ordem ética” (Lacan, 1991, p. 51). Lacan enfatiza que, para Freud, os conflitos psíquicos têm, desde o princípio, uma natureza ética e moral, indo além de uma mera perspectiva psicológica.
No nível do princípio do prazer, segundo Freud, não há Bem Supremo – das Ding –, “que é a mãe, o objeto do incesto; é um bem proibido e não há outro bem. Tal é o fundamento, derrubado, invertido, em Freud, da lei moral” (Lacan, 1991, p. 90). Em sua representação topológica, das Ding é situada no interior do sujeito, mas como excluída, ao mesmo tempo: como uma exterioridade íntima – designada como extimidade. Ou seja, “alheia a mim, embora esteja no âmago desse eu, alguma coisa que, no nível do inconsciente, só uma representação representa” (Lacan, 1991, p. 92). É por intermédio da relação que proporciona a primeira satisfação que a Coisa analítica começa a existir e a orientar todo o encaminhamento do sujeito em direção ao objeto do desejo.
Sobre a distinção entre ética e bem, Lacan argumenta que a ética “começa no momento em que o sujeito coloca a questão desse bem que buscara inconscientemente nas estruturas sociais – e onde, da mesma feita, foi levado a descobrir a ligação profunda pela qual o que se apresenta para ele como lei está estreitamente ligado à própria estrutura do desejo” (Lacan, 1991, p. 97). Trata-se de uma crítica à moral universal por se impor como um princípio válido para todos, sem levar em conta o desejo singular e irredutível, que escapa à universalização.
Em “Observação sobre o Relatório de Daniel Lagache”, Lacan ressalta: “Uma ética se anuncia convertida ao silêncio, não pelo caminho do pavor, mas do desejo; e a questão é saber como a via da conversa da experiência analítica conduz a ela” (Lacan, 1998, p. 691). É preciso “tomar o desejo ao pé da letra” (Lacan, 1958, p. 626). Trata-se de interrogar o próprio desejo e o que se faz com ele na experiência subjetiva. Em vez de perguntar “O que é o bem?”, Lacan propõe a questão: “Agiste conforme o desejo que te habita?” (Lacan, 1991, p. 376). Ainda acrescenta, “a única coisa da qual se pode ser culpado é de ter cedido a seu desejo” (Lacan, 1991, p. 385).
Responder à questão lacaniana é bem-dizer o desejo. No entanto, como bem-dizer o desejo se há uma incompatibilidade estrutural entre desejo e fala? O desejo somente pode ser dito a partir da relação do sujeito com o campo do Outro, pois “o desejo do homem é o desejo do Outro” (Lacan, 1988, p. 223). Como bem-dizer se o desejo é metonímia de nosso ser que se produz no para-além da demanda, “na medida em que, ao articular a vida do sujeito com suas condições, ela devasta ali a necessidade, mas também ele se cava em seu para-aquém […] ela evoca a falta-a-ser”? (Lacan, 1998, p. 635). Ou seja, o desejo se apresenta como condição absoluta, na falha de toda tentativa de satisfação, no descompasso intransponível entre o que se diz e o que se quer dizer, o que mostra a impossibilidade de nomeá-lo completamente.
O desejo somente pode ser entrevisto a partir da linguagem, mas sempre lhe escapa por definição, desenhando o contorno de uma ausência irredutível que demanda, incessantemente, um ato para tentar se inscrever. Conforme Lacan, “não há fala sem resposta, mesmo que depare apenas com o silêncio, desde que ela tenha um ouvinte. E é esse o cerne de sua função na análise” (Lacan, 1998, p. 249). A posição do analista consiste em sustentar o desejo, sem ceder ao imperativo do bem comum ou às normas estabelecidas e, dessa forma, conduzir o sujeito a reconhecer e nomear seu desejo. “Mas não se trata de reconhecer algo que já está aí, pronto para ser coaptado. Ao nomeá-lo, o sujeito cria, faz surgir uma nova presença no mundo. Ele introduz a presença como tal e, da mesma forma, cava a ausência como tal” (Lacan, 1985, p. 287).
A ética não é submeter-se a um ideal de bem, mas assumir a responsabilidade pelo desejo, reconhecendo a impossibilidade de qualquer realização plena, totalizante ou universal. Isso marca um deslocamento fundamental em relação à tradição filosófica da ética, recolocando o desejo no centro da experiência ética.
Para Lacan, o sujeito “é um fato de linguagem”, ou seja, constitui-se a partir de sua entrada no campo do significante. “[…] é na substituição do significante pelo significante que se produz um efeito de significação que é de poesia ou criação” (Lacan, 1998, p. 519). O sujeito “se distingue por introduzir um modo de ser que é sua energia própria […]. Esse é o ato que se cala” (Lacan, 2024, p. 216).
Lacan aprofunda a distinção entre tacere (calar) e silere (silenciar), ou seja, calar não é silenciar. Calar pode ser um ato – uma escolha –, não apenas uma ausência de fala. O calar (tacere) não se dá por falta do que dizer, mas porque esse silêncio, diferente de silere – um silêncio passivo, sem sujeito –, é um ato e “[…] um verdadeiro ato tem sempre uma parte de estrutura, por dizer respeito a um real que não é evidente” (Lacan, 1988, p. 52). O real que volta sempre ao mesmo lugar. O ato de calar do analista convoca um saber insabido do analisante.
“Sinto que sei de algumas verdades. Que já pressinto. Mas verdades não têm palavras […] É tão difícil falar e dizer coisas que não podem ser ditas. É tão silencioso. Como traduzir o silêncio do encontro real? […]” (Lispector, 1998, p. 49).
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¹ Psicanalista, Membro de Escola da EPFCL-RDB.
Referências bibliográficas
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