Prelúdio IV
Ato analítico, poesia e ética:
notas para o IX Colóquio da Rede Diagonal
Silvia Migdalek¹
Caros colegas,
Agradeço imensamente o convite, em especial à colega Esther Miikowski, com quem compartilhei um tempo de trabalho no LIPP – Laboratório Internacional de Política da Psicanálise do IF-EPFCL –, para participar deste IX Colóquio da Rede Diagonal.
Desde o início, o tema proposto para reflexão e debate neste Colóquio me pareceu instigador. O texto de apresentação faz uso de um jogo de palavras, apontando rapidamente uma direção, o que considero uma via muito fecunda em nosso campo: arte e psicanálise.
De fato, Freud, ao historicizar os diferentes momentos da direção da prática, utiliza a expressão “a arte da interpretação”, que está na origem da técnica analítica. A arte poética, a poesia, é talvez uma das expressões mais sublimes da arte. Quando se trata de um bom poema, inevitavelmente o leitor experimenta uma sensação de surpresa, de revelação — algo que nunca antes fora dito daquela forma, algo que escreve ou beira o impossível de dizer. Quando as palavras faltam para nomear a Coisa, pode-se pensar que o poeta se antecipa e capta algo — um dom que não é dado a todos.
Contudo, é igualmente verdadeiro que a experiência de uma análise, se há alguma arte à qual se aproxima, é justamente a da escrita de um poema, de alguma “fixão”. Cada análise confronta o que, para cada um, ocupa o lugar de um vazio constitutivo.
Este ponto nos remete ao lugar central que ocupa o Das Ding freudiano, lido por Lacan como o não-reconhecido, o não-predicável, que determina a experiência ética do sujeito no campo da psicanálise. É essa a questão que me proponho a desenvolver nesta apresentação.
Seguindo por outro viés importante proposto pelo tema do Colóquio, gostaria de estabelecer algumas coordenadas temporais. Em 1964, Lacan funda a Escola Freudiana de Paris, ato que nasce de uma ruptura — de uma excomunhão. Tal fundação implicava uma cisão com o dogma e a ortodoxia da IPA. Era um novo começo: um ato que deveria ser compreendido por seus efeitos e consequências.
Com a fundação da instituição Escola, cria-se uma nova modalidade de agrupamento e de laço entre analistas. Não uma “sociedade científica”, não uma “associação”, mas uma Escola de psicanálise — e não de psicanalistas. O ato de fundação da Escola aparece como um gesto de resistência e de afirmação da especificidade da psicanálise. Uma instituição que não desminta aquilo que uma experiência de análise confronta, no sentido de que se trata de uma operação de fazer barra ou de riscar o Outro — uma operação castrativa.
Lacan ministrou o Seminário XV, O ato psicanalítico, no ano seguinte à Proposição de 9 de outubro de 1967. Trata-se, ali, de examinar a especificidade do ato analítico: qual ética o orienta e qual lógica o sustenta. Lacan insiste que o ato analítico tem consequências. Nas palavras de Freud, a cura analítica não é inofensiva, e esta está absolutamente articulada à transferência. O ato analítico não é sem a transferência e, paradoxalmente, deve ir além dela. Isso constitui seu horizonte ético. O desejo do analista é um desejo separador, de obtenção da diferença absoluta. Lacan fala de uma ética do “bem-dizer”, mais próxima da poesia.
Para concluir, gostaria de retomar o aspecto lúdico que Lacan confere à experiência analítica. Na aula de 29 de novembro de 1967, ele se refere à ideia de que o analista se submete às regras do jogo que ele mesmo formula. Nesse ponto, compara sua função à de Sócrates interrogando o escravo: trata-se de apostar que algo seja dito — não importa o quê…
Cito:
“É assim que, de certa forma, tudo é concebido em virtude dos dados supostos na origem do jogo. A anamnese é feita não tanto com as coisas que são lembradas, mas com a constituição da amnésia ou o retorno do recalcado, que acaba sendo exatamente a mesma coisa. Ou seja, a forma como as fichas são distribuídas em cada momento nas casas do jogo, quer dizer, nas casas onde é preciso apostar. Além disso, em que nível os efeitos da interpretação são recebidos? No da estimulação que proporcionam à inventividade do sujeito” (Lacan, 1967, p. 21).
Estou, portanto, me referindo à poesia, de que falava há pouco. Essa ideia, que aproxima a prática analítica do jogo e da invenção, é uma fonte poderosa do desejo de psicanálise.
Tradução: Julieta Sueldo Boedo
____________________________
¹ Psicanalista, AME da EPFCL.
Obras consultadas
FREUD, S. Proyecto de psicología para neurólogos (1895). In: __. Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu.
FREUD, S. Más allá del principio del placer (1920). In: __. Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu.
LACAN, J. El seminario, libro 7: La ética del psicoanálisis (1959-1960). Buenos Aires: Paidós, 1988.
LACAN, J. Proposición del 9 de octubre de 1967. Ornicar?, s.l., n. especial, 1977.
LACAN, J. El seminario, libro 15: El acto psicoanalítico (1967-1968). Versión inédita. Texto não publicado oficialmente. Tradução para o português: Julieta Sueldo Boedo.







