Prelúdio III
A ética, os discursos e a poética
Márcia de Assis¹
O que responde o psicanalista? Questão ética sobre a natureza desta prática, sobre os seus fins e sobre o ato que lhe convém (Soler, 2013). A ética é relativa aos discursos, afirmou Lacan, em “Televisão” (1973/2003, p. 539). Tal afirmação nos convoca a buscar o “Seminário, livro 7: a ética da psicanálise” (Lacan, 1959-60/1997, p. 376-377), quando são feitas referências à ética aristotélica tradicional e à ética própria da psicanálise, salientando a oposição entre elas. Sobre a ética aristotélica, aquela relativa ao discurso comum, o discurso do Senhor, e quando Lacan escreveu e falou sobre esse tipo de laço social, ele falava do laço que ocorria na Idade Antiga, ou seja, um discurso que ordenou o mundo antigo, apontando a parceria do Senhor e o escravo. Embora seja o discurso que opera cada vez que o sujeito se faz representar por um significante, historicamente podemos pensar no discurso que ordenou os gozos humanos para que fossem possíveis os laços libidinais, constituindo as sociedades da era antiga. (Soler, 2006, p. 51-54).
No discurso do Senhor, do agente à produção, temos a rota dos gozos ordenados, o que pode ser compartilhado, os gozos envolvidos no bem-estar coletivo e cotidiano, ou seja, a produção de bens de consumo para a comunidade. Isso também implica compartilhar um mundo de significações. No entanto, há uma parte que fica fora desse circuito, algo é deixado de lado. Lacan usou a expressão “as coisas do amor” (desejo, amor e gozo) para designar essa parte que não se generaliza e que não é levada em conta no discurso do Amo, o Eros íntimo inconsciente. O que nos faz pensar na afirmação de Lacan acerca da ética tradicional aristotélica, uma ética coletiva, que deprecia o desejo (1959-60/1997, p. 377). Por sua vez, a ética relativa ao discurso analítico leva em conta o desejo, um desejo específico, o desejo de psicanalista, que orienta o ato analítico e a direção do tratamento, provocando o desejo do analisante. É a ética do bem-dizer extraída da prática, do laço social determinado pela prática de uma análise (Lacan, 1973/2003, p. 539), uma ética destilada do ato analítico.
Desde Freud consideramos que o desejo se faz presente na ação humana, Lacan expôs a interrogação – agiste conforme o desejo que te habita? – questão que convoca o desejo do sujeito analisante: Che vuoi? E acrescenta se tratar de um questionamento difícil de ser posto e sustentado em outro contexto que não seja o analítico (Lacan, 1959-60/1997, p.374-76). Assim sendo, é possível perceber que o discurso do Senhor seja o avesso da psicanálise. O que é deixado de lado no discurso do Senhor, o discurso analítico faz aparecer: a parte de gozo não compatível com a ordem social. Em termos freudianos, o retorno do recalcado. Portanto, ao afirmarmos que o discurso do Senhor é o avesso do discurso analítico, estamos dizendo que um condiciona o outro.
A ética tradicional aristotélica está no polo oposto à ética da psicanálise, que reconhece o desejo no âmago da experiência da ação humana e, portanto, aponta uma revisão ética a partir da questão acima mencionada, enquanto a ética moral de Aristóteles responde à política de seu tempo, sua moral é a moral do mestre, vinculada a uma ordem dos poderes (Lacan, 1959-60/1997, p. 377). Vale ressaltar que o termo maître (mestre em francês) usado no texto, designa a posição de superioridade presente nas seguintes acepções: o senhor, em oposição ao escravo; o amo, em oposição ao criado; o mestre, em oposição ao discípulo. Quer dizer, refere-se à posição de saber do mestre na Antiguidade. No entanto, no que se refere ao desejo, a posição do poder, qualquer que seja, em toda circunstância e incidência, histórica ou não, sempre foi a mesma. Vale até os nossos dias, quer dizer, na sociedade contemporânea, sob o regime capitalista, o mestre seria o capital?
Somos todos proletários – afirmou Lacan, em 1974. Não há parceria discursiva no discurso capitalista, cujo efeito é a fragmentação dos laços sociais. Há sujeito só, com seus objetos e seu gozo formatado no mercado, um gozo que se pretende universal. Eis aí a oposição de objetivos entre o discurso capitalista e o discurso analítico (Soler, 2006, p. 60). O que é acolhido no dispositivo analítico, o que é convocado a aparecer, ou seja, a singularidade de cada um, é rechaçado no discurso capitalista, que exclui “as coisas do amor”, fazendo comércio com elas (Soler, 2006, p. 56). Porém, não é porque algo esteja excluído que não tenha força, talvez à espera de que possa ser recolhido, caso (h)aja um psicanalista em função no dispositivo analítico, pois a oferta é o começo do ato, o primeiro passo do ato analítico (Soler, 2013, p. 18-19), desde o convite feito – fale livremente. A oferta é anterior à solicitação e pode levar à entrada em análise propriamente dita, ela instaura a transferência, que é suportada pelo ato analítico, e prepara a resposta à demanda transferencial. De que resposta se trata? Interpretação. É o termo utilizado desde Freud, ao qual Lacan não renunciou. Não se trata de interlocução, pois há resposta se há analista em posição de causa. O que se espera de um psicanalista? Que faça funcionar seu saber em termos de verdade (Lacan, 1969-70/1992, p. 50). Um saber como verdade – isso define o que deve ser a estrutura da interpretação (Lacan, 1969-70/1992, p. 34). Um semi-dizer, função de enigma, a interpretação como resposta do analista visa o real, opera pelo equívoco significante, desconcerta, provoca ondas, faz ressoar… eis a (po)ética.
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¹Psicanalista, Membro de Escola da EPFCL-RDB
Referências bibliográficas
LACAN, J. (1988). O seminário, livro 7: a ética da psicanálise (1959-1960). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997.
_______. O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise (1969-1970). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992.
_______. (1973) Televisão. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., pp. 508-543, 2003.
______. Conferência proferida no Centro Cultural Francês, em 30 de março de 1974. Inédito.
SOLER, C. (2013) ¿A que se le llama Perversión? Associación Foro del Campo Lacaniano de Medellin. Medellin, 2006.
_______. A oferta, a demanda e… a resposta. In. Stylus, Rio de Janeiro, n. 26, pp. 15-32, junho 2013.







