Como se captura o desejo ?
Como capturar o desejo é uma pergunta que todos nós nos fazemos como psicanalistas. As respostas a essa pergunta vão desde o questionamento de Freud sobre o desejo inconsciente até o formalismo borromeano de Lacan, que é a última forma de respondê-la pelo dizer sinthoma.
Mas, antes de chegar a essa ultima formulação, há etapas, inclusive aquela que envolve a fantasia. Em seu seminário O desejo e sua interpretação (LACAN, 2013), questionando-se como podemos capturar o desejo, Lacan responde: pelo rabo, invocando aqui uma peça de Picasso intitulada: “O desejo pego pelo rabo”. Mas, acrescenta, “pego pelo rabo, ou seja, na fantasia”. (LACAN, 2013, p.489). É, portanto, pela fantasia que ele nos propõe capturar o desejo, uma forma de dizer que não é pelo órgão masculino que o capturamos. Porque se o limitássemos ao rabo, não seria possível avançar mais à frente para capturar esse desejo, porque o que o faz funcionar é a fantasia.
No entanto, em « A direção do tratamento » (LACAN, 1966, p.641) é afirmado que o desejo é “incompatível com a palavra”, portanto impossível de dizer. Um impossível de dizer mas que, entretanto, tem um lugar na estrutura da linguagem, a do significado, a do interdito, com este trocadilho do inter dos ditos.
O que nos leva a este paradoxo do desejo: notamos a sua presença ou a sua ausência, mas ele é evasivo, escapa ao nosso alcance.
Daí a questão de como capturá-lo, esse furão. Pela fantasia, certamente, mas por que esse desejo situando no inter dos ditos, causado por uma falta, deveria ser melhor capturado na fantasia do que em outro lugar?
No Che voi? que questiona o Outro em seu desejo, mas também o próprio sujeito em seu desejo, o que você quer? não há resposta articulável. Pois o que acontece no nível da cadeia do inconsciente não pode ser articulável. É isso que a escrita S(Ⱥ) simboliza na álgebra lacaniana.
É nesse lugar de falta de resposta ao Che vuoi? que Lacan situa a fantasia que ele diz ser fundamental. É uma constante para o sujeito, um axioma, que lhe confere um estatuto de real, porque é uma constante de gozo.
E sabemos que isso resulta em repetição para o sujeito: ou seja, que ele sempre faz a mesma escolha em situações idênticas. É assim que o inconsciente se apresenta como uma articulação indefinidamente repetida. O sujeito traz a marca dessa repetição que lhe permanece inacessível. Até que a análise lhe permita se situar como sendo ele mesmo o suporte dessa repetição.
Nós encontramos os efeitos na clínica com o que os sujeitos chamam de tendência masoquista, tendência ao fracasso, autossabotagem. É muito comum. Há algo que insiste e que vai contra o bem do sujeito. Um além do princípio do prazer.
Mas antes de conseguir isso, a experiência da repetição se apresenta como vinda de fora. Há, portanto, uma distância a ser vencida para atingir a meta traçada por Freud do Wo Es war soll Ich verden. O Ich aqui não é o eu imaginário, mas o sujeito do inconsciente.
Na fantasia, o objeto do desejo tem precisamente a função de significar o ponto onde o sujeito não consegue se nomear, trata-se da dimensão de afânise do sujeito ao se aproximar desse objeto. À pergunta: o sujeito está no ponto onde ele deseja? Lacan responde que o sujeito não está no ponto onde ele deseja, mas em algum lugar na fantasia. Ou seja, não há sujeito do desejo, mas sujeito da fantasia.
Tanto que a relação do sujeito ao seu ser, que Lacan designa como real, se faz no nível do corte. E a partir daí, a fantasia passa a designar esse ponto, como metonímia do ser. Com a fantasia fundamental, o que aparece é a equivalência entre o sujeito e o objeto. É o ponto de finitude da psicanálise, o que na proposição de 67 sobre o psicanalista da Escola ele chama de destituição subjetiva.
Esse ponto é alcançado pelo que ele chamou de travessia da fantasia, onde o sujeito percebe seu ser como objeto. Com esta percepção, o sujeito já não se experimenta apenas como uma falta de ter (castração), mas também como um objeto que não pode ser significantizável.
É, portanto, muito simplesmente, o que poderíamos esperar com o dispositivo do passe, um testemunho do passante sobre sua relação com a fantasia. Aquele que soube vencer a aversão de enfrentá-la, que como todo neurótico, só a aborda com uma luneta (LACAN, 2001, p.326), ou seja, de longe.
É claro que, muitas vezes, assim como o analisante reluta em se expressar sobre sua fantasia enquanto é muito falante sobre seus sintomas, os testemunhos do passe podem se estender sobre a letra do sintoma e silenciar sobre a fantasia que sustenta o desejo do sujeito.
Isso levanta questões, dentre outras :
-Se a frase da fantasia fundamental vale como axioma para o sujeito, como a análise pode modificá-la?
-Para o sujeito analisado, que lugar ocupa sua fantasia ?
Patrick BARILLOT, AME da EPFCL-France.
Referências Bibliográficas
LACAN, J. Le Seminaire (1958-1959). Livre 6. Le désir et son interprétation. Éditions de la Martinière, 2013.
————. Écrits. Ed. du Seuil, Paris, 1966.
———— Autres Écrits. Ed. du Seuil, C.F, Paris, 2001.
Tradução : Ângela Mucida
Comment s’attrape le désir ?
Comment s’attrape le désir est une question que nous nous posons tous comme psychanalyste. Les réponses à cette question vont de l’interrogation de Freud sur l’inconscient désir jusqu’au formalisme borroméen de Lacan qui est la dernière façon d’y répondre par le dire sinthome.
Mais avant d’arriver à cette formulation ultime, il y a des étapes dont celle qui implique le fantasme. Dans son séminaire « Le désir et son interprétation » (LACAN, 2013), s’interrogeant sur comment nous pouvons attraper le désir, Lacan répond : par la queue, convoquant ici une pièce de théâtre de Picasso intitulée : « Le désir attrapé par la queue ». Mais il ajoute « attrapé par la queue, c’est à savoir dans le fantasme » (LACAN, 2013, p. 489). C’est donc par le fantasme qu’il nous propose d’attraper le désir, façon de dire que ce n’est pas par l’organe male qu’on l’attrape. Parce que si on se limitait à la queue on n’en serait pas plus avancé pour l’attraper ce désir, car ce qui la fait fonctionner c’est le fantasme.
Cependant, le désir est dit « incompatible avec la parole » dans la direction de la cure (LACAN, 1966, p.641), donc impossible à dire. Un impossible à dire mais qui, néanmoins, a une place dans la structure du langage, celle du signifié, celle de l’interdit, avec ce jeu de mot de l’inter des dits.
Ce qui nous mène à ce paradoxe du désir : on constate sa présence ou son absence mais il est insaisissable, il échappe à la saisie.
D’où l’interrogation de comment l’attraper, ce furet. Par le fantasme, certes, mais pourquoi ce désir situé dans l’inter des dits, causé par un manque, s’attraperait-il mieux dans le fantasme qu’ailleurs ?
C’est qu’au Che voi ? qui questionne l’Autre dans son désir mais aussi le sujet lui-même sur son désir, à ce que veux-tu ? il n’y a pas de réponse articulable. Puisque ce qui se passe au niveau de la chaine de l’inconscient n’est pas articulable. Ce que symbolise l’écriture S(Ⱥ) dans l’algèbre lacanien.
C’est à cet endroit de l’absence de réponse au Che vuoi ? que Lacan situe le fantasme qu’il dit fondamental. C’est une constante pour le sujet, un axiome, ce qui lui donne un statut de réel, car c’est une constante de jouissance.
Et nous savons que cela aboutit à de la répétition pour le sujet : à savoir qu’il fait toujours le même choix dans des situations identiques. C’est ainsi que l’inconscient se présente comme une articulation indéfiniment répétée. Le sujet portant la marque de cette répétition qui lui reste inaccessible. Jusqu’à ce que l’analyse lui permette de se situer comme étant lui-même le support de cette répétition.
Nous en retrouvons les effets dans la clinique avec ce que les sujets dénomment de tendance masochiste, de penchant à l’échec, d’auto-sabotage. C’est très fréquent. Il y a quelque chose qui insiste et qui va contre le bien du sujet. Un au-delà du principe de plaisir.
Mais avant d’y parvenir, l’expérience de la répétition se présente comme venant du dehors. Il y a donc une distance à franchir pour atteindre le but fixé par Freud du Wo Es war soll Ich verden. Le Ich ici ce n’étant pas le moi imaginaire mais le sujet de l’inconscient.
Dans le fantasme, l’objet du désir a précisément la fonction de signifier le point où le sujet ne peut se nommer, c’est la dimension d’aphanisis du sujet à l’approche de cet objet.
A la question : le sujet est-il au point où il désire ? Lacan répond que le sujet n’est pas au point où il désire mais quelque part dans le fantasme. C’est-à-dire qu’il n’y a pas de sujet du désir mais un sujet du fantasme.
Si bien que le rapport du sujet à son être, que Lacan désigne comme réel, se fait au niveau de la coupure. Et dès lors le fantasme vient pour désigner ce point, comme métonymie de l’être. Avec le fantasme fondamental, ce qui apparait c’est l’équivalence entre le sujet et l’objet. C’est le point de finitude de la psychanalyse, ce que dans proposition de 67 sur le psychanalyste de l’École il appelle la destitution subjective.
Ce point s’atteint par ce qu’il a appelé la traversée du fantasme, là où le sujet s’aperçoit de son être d’objet. Avec cet aperçu, le sujet ne s’éprouve plus simplement comme manque à avoir (castration) mais aussi comme objet, non significantisable.
C’est donc tout bonnement que nous pourrions attendre, avec le dispositif de la passe, un témoignage du passant sur son rapport au fantasme. Lui qui a su surmonter l’aversion à s’y confronter, qui comme tout névrosé ne l’approche, ce fantasme, qu’à la lorgnette (LACAN. 2001, p. 326), c’est à dire de loin.
Force est de constater que souvent, tout comme l’analysant est réticent à s’exprimer sur son fantasme alors qu’il est très dissert sur ses symptômes, les témoignages de passe peuvent s’étendre sur la lettre du symptôme et rester silencieux sur le fantasme qui soutient le désir du sujet.
De là s’ouvrent des questions, parmi d’autres :
-Si la phrase du fantasme fondamental vaut comme un axiome pour le sujet, comment l’analyse peut-elle le modifier ?
-Quelle place tient pour le sujet analysé son fantasme ?
Patrick BARILLOT- AME EPFCL- France
Références bibliographiques
LACAN, J. Le Seminaire (1958-1959). Livre 6. Le désir et son interprétation. Éditions de la Martinière, 2013.
————. Écrits. Ed. du Seuil, Paris, 1966.
———— Autres Écrits. Ed. du Seuil, C.F, Paris, 2001.







