A clínica e o desejo.
Trabalhei, por alguns anos, na função de médico clínico, num hospital geral. Era janeiro de 2006, quando recebi a solicitação de um parecer clínico sobre uma paciente que se encontrava internada no referido Hospital, numa enfermaria. Solicitava-me o parecer um colega cirurgião. Para atender aos pedidos de pareceres, costumava, por método, ver previamente os prontuários desses pacientes para saber do que se tratava, qual dúvida o colega gostaria de esclarecer através de meu parecer clínico.
Nessa ocasião, conforme relatado, tratava-se de uma mulher de 35 anos que dera entrada no dia anterior, com quadro de desmaio seguido de coma. No seu prontuário já constavam resultados de exames laboratoriais de sangue e líquor com resultados normais. Sua tomografia de crânio mostrava ausência de alterações. Durante o exame da paciente, eu perguntei à mãe, que a acompanhava e encontrava-se sentada ao lado do leito, sobre antecedentes mórbidos da paciente. Ela me disse ser a filha muito nervosa, mas não havia outras doenças. Ao exame físico, a moça não apresentava resposta a estímulos verbais e álgicos. Apresentava ausência de resposta a reflexos superficiais e profundos; pupilas iguais, com reflexo fotomotor presente; ausência de sinais meníngeos.
Após o exame, expliquei à mãe que seria passado um cateter nasogástrico para que a paciente pudesse receber alimentação. Então, a mãe me disse: “Mas ela está comendo. Ontem no almoço só consegui dar duas colheradas, mas à noite ela comeu todo o mingau”. Perguntei-lhe: “como a senhora conseguiu dar?” A mãe explica como procede para alimentar a filha que até então se considerava em coma: “Eu levanto a cabeça com uma mão e vou colocando a comida na boca, ela vai engolindo. O que o senhor acha que ela tem?” Respondi: “Não sei. Só sei que coma não é”.
Um esclarecimento: qualquer paciente que esteja em coma não tem nenhuma capacidade de deglutir. E a minha curta conversa com a mãe deu-se ao lado do leito, diante da paciente.
No dia seguinte, ao retornar para a reavaliação, a mãe disse que, no dia anterior, após a minha saída, aos poucos a filha começou a se mobilizar, abriu os olhos e abraçou-a, chorando por algum tempo.
Essa reação da paciente não foi sem efeito. Inicialmente me surpreendeu. Nada foi prescrito, nada foi feito. Seguido por uma interrogação para além da experiência médica … para o sujeito que fala. Um sentimento de que havia um saber, silencioso, ali, onde nada foi oferecido e que, nesse vazio, algo poderia ser alojado. Um “nada” foi prescrito.
Para a paciente, o oferecimento desse “nada …não sei…” seguido de um “…só sei que coma não é”, pôde articular uma demanda de saber, ao solicitar-me acompanhamento, por ocasião da alta hospitalar.
Nessa abordagem temática, a expressão desejo do psicanalista teve sua primeira aparição no ensino de Lacan no Seminário 6, dedicado ao desejo e sua interpretação. Tal referência surge em uma situação de ensino na qual Lacan põe, frente a frente, o desejo como desejo do Outro e o desejo do psicanalista, num contexto teórico e clínico em que buscava resposta para o fundamento da posição do psicanalista.
Nas palavras de Lacan, o problema da análise reside na situação paradoxal em que se encontra o desejo do Outro que o sujeito haverá de reencontrar, nosso desejo, por demais presente no que o sujeito supõe que o demandamos. E essa situação, segundo ele, só pode ser sustentada por meio da manutenção de um artifício que faz parte de toda a regra analítica. Conforme Lacan, essencial da análise dessa situação em que nos encontramos é ser o analista aquele que se oferece como suporte para todas as demandas e que não responde a nenhuma. E acrescenta que tem também um papel essencial, aquilo que se reproduz ao final de cada sessão, ou seja, esse vazio a que nosso desejo tem de se limitar, esse lugar que deixamos para o desejo analisante para que ele ali se situe.
Na sequência desse Seminário, Lacan relembra a existência de um fator que jamais deve ser desconsiderado pelos psicanalistas: a essência vazia do desejo que supõe que o psicanalista nada deve desejar para o analisante, não impondo assim a este qualquer ideal de vida, de cura ou mesmo de normalidade subjetiva. Assim procedendo, contendo a influência sugestiva de seus próprios ideais na condução do processo analítico, o psicanalista deixa o campo livre, porque vazio de respostas às demandas, para o desejo do analisante deslizar pela cadeia significante sob a qual corre o desejo. Por isso, Lacan assinala para algo além do desejo do Outro, para a vacuidade constitutiva do desejo como a verdadeira mola ética que sustenta a regra fundamental da psicanálise e que move o processo psicanalítico.
Para Lacan, a psicanálise é o tratamento que se espera de um psicanalista, marcando a concepção da psicanálise como estrutura, a do tratamento analítico. Podemos depreender que o desejo do analista é o que vetoriza a análise. No Seminário Os quatros conceitos fundamentais da psicanálise, Lacan diz que “o desejo do analista não é um desejo puro. É um desejo de obter a diferença absoluta, aquela que intervém quando, confrontado com o significante primordial, o sujeito vem, pela primeira vez, à posição de se assujeitar a ele”. ( Lacan, 1998, p.260)
Na “Carta aos Italianos”, Lacan diz: “O analista aloja um outro saber, num outro lugar, mas que deve levar em conta o saber no real”. A análise depende disso, mas não basta! “Seria preciso que a isso se juntasse o clamor de uma pretensa humanidade, para quem o saber não é feito, já que ela não o deseja. Só existe analista se esse desejo lhe advier, que já por isso ele seja rebotalho da dita humanidade”.
O desejo do analista é um desejo advertido, inédito. Que pode surgir no processo da análise e não sem ela. Essa travessia não se dá sem o encontro com o Real, sem pontos de impasse; mas, espera-se o passe. C.Soler, em “Desejo no singular, desejos no plural”, diz “o desejo é engendrado a partir da falta … é um vetor infinito em razão de sua causa que não cessa de faltar” (Soler, 2014, p.13). O desejo do analista é a marca da falta, de esvaziamento do gozo. Poder operar através da falta permite encontro com o Real, com possibilidade de alojar um saber.
Luiz Carlos Soares Monteiro-Membro da EPFCL-Rede Diagonal Brasil- Petrópolis
Referências bibliográficas:
LACAN, J.: O seminário, livro 6: O desejo e sua interpretação/Jacques Lacan; RJ, JZE, 2016.
LACAN, J.: O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, RJ, JZE, 1998.
LACAN, J.: Nota Italiana Outros Escritos, RJ, JZE, 2003.
SOLER, C.: Desejo no singular, desejos no plural, Stylus, n.28, RJ, AFCL, 2014






