O desejo na clínica das psicoses
Na abordagem psicanalítica das psicoses é muito comum nos depararmos, ainda hoje, com concepções negativas, que colocam as psicoses do lado do defeito, da falha. É habitual que se diga que o paciente é objeto do gozo do Outro ou que é comandado pelas alucinações, como se elas não viessem do próprio sujeito. Muitos pós-freudianos, ao limitarem a discussão à perda da realidade e à fragmentação do Eu, acabaram por reforçar estas leituras deficitárias nas psicoses.
Lacan não abandonou a noção de foraclusão do Nome-do-Pai (NP) no campo do Outro como um divisor de águas na clínica, mas nunca a considerou como um déficit, situando a questão em torno da posição do sujeito na linguagem. Em As psicoses, ele enfatiza que a estrutura psicótica provém de algo que se situa nas relações do sujeito com o significante. O psicótico é um testemunho aberto do inconsciente e a psicanálise, neste sentido, considera o discurso delirante como discurso do inconsciente, discurso amarrado ao significante na sua mais pura literalidade.
No Pequeno discurso aos psiquiatras em Sainte-Anne, Lacan nos chamou a atenção para a importância da resposta que se deve dar frente à angústia que o encontro com o psicótico produz, localizando ao menos duas alternativas de resposta: responder pelo medo e defender-se deste encontro erigindo barreiras de proteção, como os muros ou a teoria, ou responder com “outra coisa”. A primeira alternativa fica do lado da posição do psiquiatra: tomar o psicótico como objeto de estudos e não como sujeito – muitos analistas acabam caindo nesta posição para se defenderem da angústia. A segunda, é a posição de um analisado, alguém que possa responder para além da angústia, alguém que não obture sua própria divisão com o saber da teoria nem com as barreiras dos manicômios. A resposta do analista localiza-se ao nível de seu ato e do desejo que o habita, devendo suportar este desejo com sua presença, fazendo-se causa de desejo do analisante – aí é que Lacan localiza a eficácia do discurso analítico.
Ao afirmar em A direção do tratamento… (1958) que “é o desejo que mantém a direção da análise”, Lacan sinaliza para o que realmente está em jogo: trata-se de localizar a posição do sujeito em relação ao desejo, o suporte que o sustenta e a capacidade de invenção de cada sujeito.
A teoria freudiana das psicoses também se atém à concepção de desejo inconsciente. Freud leu o caso Schreber a partir do desejo, apontando para três posições do psicótico ante o seu desejo: a de recusa do desejo — posição melancólica, de mortificação do corpo; a de tentar instituir um desejo no Outro, via perseguição ou a erotomania e, finalmente, a de aceitação do desejo recusado, de certa realização do desejo no delírio, que aporta a metáfora delirante. Três formas de desejo nas psicoses, não mediadas pelo recalque e sem o suporte na fantasia.
Embora Lacan tenha sempre considerado o desejo ao abordar as psicoses, muitos lacanianos não o seguiram nesta direção, fixando-se à noção de limitação de gozo para dar conta do tratamento das psicoses. Julieta De Battista, em O deseo en las psicoses, salienta a importância do conceito de desejo na clínica das psicoses, considerando-o um operador clínico para possíveis mudanças subjetivas e como um elo que falta para explicar as modalidades de restituição das crises.
Se o desejo não tem como suporte a fantasia, como na neurose, seu suporte nas psicoses é a metonímia. Trata-se de um desejo não simbolizado, sem a referência que introduz o falo, significante da falta; desejo autônomo em relação à lei, “desejo que origina a lei, e não o contrário.” (Lacan, 1958).
Podemos pensar, então, que o delírio pode operar como suporte do desejo, que a escrita, como em Joyce, ou outras formas de arte, podem funcionar como suporte do desejo. O desejo do psicótico estaria vinculado ao estabelecimento de uma lei singular e ao sinthoma como função de enodamento dos registros R, S, I, o que pode se dar sem a referência ao NP. Dessa forma, o que orienta o tratamento é a posição do sujeito em relação ao desejo. “O desejo oferece uma chave de leitura do que poderia enodar R, S, I sem a referência ao NP e sem que isto se constitua uma condição deficitária, mas simplesmente diferente.” (De Battista, 2017).
Adriano Anchieta – Membro da EPFCL – RDB – Belo Horizonte.
Referências bibliográficas:
De Battista, J. (2017). El deseo en las psicosis. Buenos Aires: Letra Viva, 2ª ed.
Freud, S. (1911/1980). Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de paranóia. In: E.S.B das obras completas de S. Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1980, v. XII.
Lacan, J. (1955-1956/1985). O seminário, livro 3: As psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
Lacan, J. (1955/1998). De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose. In.: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
Lacan, J. (1958/1998). A direção do tratamento e os princípios de seu poder. In Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
Lacan, J. (1958-1959/s/d). O seminário, livro 6: O desejo e sua interpretação. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
Lacan, J. (1967). Pequeno discurso aos psiquiatras. Disponível em: https://pt.scribd.com/document/270116905/Discurso-Aos-Psiquiatras.







