O desejo de analista e a transmissão da psicanálise
O desejo de analista orienta uma análise, orienta a transmissão da psicanálise e, consequentemente, o dispositivo do passe. Tendo como característica desse conceito o fato de ele ser incompatível com a palavra, este desejo não se predica. O desejo de ser, com todas as predicações, é a paixão do neurótico (FRANCO, 2011, p. 152). Lacan, seguindo a ética freudiana, demonstrou que o desejo de analista não é desejo de objeto nenhum – nem desejo de educar/ensinar, curar, nem mesmo o desejo de fazer o bem. Por estrutura, esse desejo não pode ser imaginado, nem mesmo antecipado. Não se trata de aprender como transmiti-lo.
A questão se coloca: como, então, se dá a transmissão do intransmissível? A fim de que ocorra a transmissão da psicanálise na sua vertente real, é necessária “a criação de um dispositivo pelo qual o real toca no real, ou seja, daquilo que articulei como o discurso analítico” (LACAN, 1972, p. 545). Essa questão comporta a ética da psicanálise em sua conexão com o real, a ética do bem dizer: para a psicanálise, aquilo que não pode ser dito é preciso dizê-lo!
Para cuidar da transmissão da psicanálise, Lacan funda sua Escola e cria/inventa o procedimento do passe, para preservar e proteger o dizer do risco do apagamento e dar importância à lógica de sua transmissão.
Esse ponto toca na questão da especificidade própria do saber na psicanálise, que não se orienta pela “soma de saberes possíveis de compilar em um ensinamento enciclopédico ou universitário” (NOMINÉ, 2001, p. 48), mas por um saber que leva em conta o saber no real, para o sem sentido e para o não-todo.
Como aponta Dominique Fingermann (2016, p. 172), “o saber do inconsciente real, inconsciente sem sujeito, o saber d’alíngua que não se encadeia e não faz sentido, esse saber é antagônico, incompatível com o que passa no ensino, esse saber passa em ato, na mostração e não na demonstração”. Para Lacan, “um dizer se diz sem que se saiba quem o diz, é a isso que o pensamento se furta”. (LACAN, 1967, p. 335)
Tal como indicou Freud, existe “uma dificuldade no caminho da Psicanálise” (FREUD, 1917), que é, nos termos de Lacan, o fato de que o saber não passa facilmente e cria obstáculos para a transmissão da Psicanálise. Isso que não passa facilmente “é uma subversão que se produz na função, na estrutura do saber” (LACAN, 1971-1972, p. 17).
Lacan visa obter com o passe testemunhos sobre o que permite que alguém se torne psicanalista após ter sido psicanalisante. Essa passagem é por ele chamada de aberração. O desejo do analista é o nome dessa aberração. Nesse sentido, “vale a pena tudo que pudermos recolher de testemunhos” (LACAN,1971-1972, p.115). Lacan esperava que os analistas se dispusessem a dar esse testemunho simplesmente em nome da própria experiência (LACAN,1971-1972, p.114).
O passe, enquanto vetor da Escola, tem consequências para a direção do tratamento desde o início de uma análise até o seu fim.
O dispositivo do passe, esse furo no saber no âmago da Escola, “esse real em jogo na formação do analista”, pode acolher o que se articula sobre o desejo do psicanalista a partir de seu ato. Trata-se, para Lacan (2003/1967), da expansão do ato analítico. É no ato psicanalítico, sempre contingente, que o desejo do analista – inarticulável, ancorado no real – é um dizer. Como aponta Lacan (2003/1969, p. 371), o ato tem um lugar através de um dizer e modifica o sujeito.
É a partir do encontro com um real impossível de dizer que o desejo de analista pode advir. O desejo de analista pode ser articulado a partir de um sem saída, de um impasse no qual se coloca para o sujeito sua ética, na contingência do ato analítico. É “o ato que subverte o impasse próprio à via do significante” (FINGERMANN, 2016, p. 171). É nesse momento de impasse, de confrontação com o real, que, eventualmente, pode-se produzir essa invenção singular: o desejo de analista.
Para fazer o analista (Lacan, 1973, p. 313), o que causa e sustenta seu ato, sua reinvenção da psicanálise, faz-se necessária a incidência do desejo de analista.
A transmissão da psicanálise na sua vertente do real está na dependência dessa reinvenção, como destacado por Lacan no “Congresso sobre a transmissão”:
“É muito chato que todo psicanalista seja obrigado – já que deve ser forçado a isso – a reinventar a psicanálise. Se eu disse em Lille que o passe me decepcionou, é por isso, pelo fato de que cada psicanalista deve se reinventar, conforme o que conseguiu extrair do fato de ter sido psicanalisante por um tempo, que cada analista reinvente o modo como a psicanálise pode durar.” (LACAN, 1978, p. 66).
Essa reinvenção localiza-se neste lugar: entre o que é passível de ser transmitido através da linguagem (simbólico) e o que não pode ser inteiramente articulado (o real). O passe desempenha um papel fundamental na transmissão da psicanálise ao permitir que o intransmissível do real e o indizível do desejo sejam abordados e explorados, a partir da invenção singular, possibilitando, simultaneamente, uma aposta na reinvenção da psicanálise.
Silvia Fontes Franco-Membro da EPFCL-RDB – São Paulo
Referências bibliográficas:
FINGERMANN, D. (2016). A (de)formação do psicanalista: as condições do ato psicanalítico. São Paulo: Escuta.
FRANCO, S. (2009). Das consequências analíticas do passe: o inessencial do sujeito suposto saber. In: Stylus, n. 19, p. 93-105.
FRANCO, S. (2011). O analista deve se ausentar de todo o ideal do analista. In: Revista Zero, n.3, p.149-154.
FREUD, S. (1971) Uma dificuldade no caminho da psicanálise. In: E.S.B. Rio de Janeiro: Imago, 1969.
LACAN, J. (1967). Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, p. 248-264.
LACAN, J. (1972). O engano do sujeito suposto saber. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, p. 329-340.
LACAN, J. (1972). … ou pior. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, p. 544-549.
LACAN, J. (1971-1972). O saber do psicanalista. Recife: Centro de Estudos Freudianos do Recife, 1997.
LACAN, J. (1973). Nota Italiana. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, p. 311-315.
LACAN, J. (1978). Congresso sobre a transmissão. In: Documentos para uma Escola II: Lacan e o Passe. Letra Freudiana, 1995, ano XIV, n. 0, p. 311-315.
NOMINÉ, B. (2001). Campo freudiano, campo lacaniano. In: Revista Heteridade, n.1, p. 43-51.







