O inconsciente e o real
“O inconsciente é isso. É a face de real daquilo com o que estamos embaraçados” (Lacan no seminário 25, lição de 10 de janeiro de 1978).
No decorrer de seu ensino, Lacan perpassa diversas definições para esse conceito fundamental da psicanálise: o inconsciente. Vou retomar alguns momentos do ensino de Lacan para alcançar seus fundamentos mais tardios de sua transmissão. Em seus Escritos – Função e campo da fala e da linguagem em psicanalise – ele havia afirmado que o inconsciente seria “o capítulo censurado” de uma história de desejo, “marcada por um branco ou ocupado por uma mentira”.
Desde o seu texto de 1914, Recordar, repetir e elaborar, Freud anuncia que “o que não se pode recordar (o que ele buscava no trabalho de transferência), repete-se. Ele nomeou essa repetição de Agieren. O que interessava à Freud nessa época era, acima de tudo, a relação da compulsão à repetição com o trabalho do inconsciente na transferência. E ele afirmava que “a transferência, ela própria, seria apenas um fragmento da repetição e que a repetição seria uma transferência do passado esquecido”. Nessa época, Freud dá ênfase à insistência dos traços apagados da memória. Ele também localiza esse fenômeno como objeção ao princípio do prazer, afirmando que precederia do princípio regido pelo mais além do prazer.
Assim, Freud observa nas neuroses de guerra, nos sonhos traumáticos e angustiantes, nos jogos infantis e, principalmente, nos impasses transferenciais, o automatismo da repetição – Wiederholungswang – que modifica sua teoria das pulsões levando-o a nomear a pulsão de morte como responsável e causadora desses fenômenos.
Para Lacan, a transferência não é puramente repetição. Aprendemos com Lacan que esses impasses transferenciais são causados pelo que ele nomeia de “letra”, concebida como puro traço desligado de sentido e que denota a entrada no jogo da linguagem, nos equívocos da linguagem, ou seja, estamos falando do objeto a. Esse lugar de onde irrompe um impossível de dizer também se denota uma cota de gozo. Esse lugar vazio de sentido, singular a cada sujeito, sinaliza a dimensão do Real na estrutura da linguagem. Essa repetição pode ser lida como pe-tição! Contudo, ela apenas vela e desvela Um possível encontro com a surpresa cuja resposta é Uma chama, Uma fumaça que clama pelo novo. Estamos falando do Um, que se repete como signo de gozo e é signo do real.
Retornemos a Freud para lembrar de um de seus clássicos casos clínicos que bem explicita o descrito acima: o Homem dos Ratos. O Tenente Ernst Lanzer, ao relatar a Freud a tortura dos ratos sofrida em um soldado por seu superior militar se manifesta com um esgar de horror que não passa desapercebida por Freud. Então comete um ato falho ao chamar Freud de Herr Captain, Podemos ler o “rato” como o significante Um da singularidade daquele sujeito. Esse Um encarnado pode ser lido como a letra Um de seu sintoma, que também denota a ex-sistência do simbólico, assim como é uma manifestação do real, é índice do que faz gozar o inconsciente. Por outro lado, é o que permite a Freud ouvir nas ressonâncias da fala as equivalências simbólicas dos significantes Uns do inconsciente daquele sujeito. O som dos significantes usados na história/histerização daquela experiência de análise ressoa e se sucede da palavra Ratten (ratos), para o som Raten (dívida), deslocando-se para Spielratte (rato de jogo-pai), etc. Enfim, “tantos florins tantos ratos” propiciam que dinheiro, herança, dívida, casamento poderiam ter o mesmo valor econômico de gozo e poderiam ser substituídos um pelo outro na experiência analítica daquele sujeito.
O que aí ocorre é o encontro faltoso, chamado por Lacan, de encontro faltoso com o real do sexo, do impossível da relação sexual, onde um gozo proibido insiste no mal-estar do inconsciente. Já há aí indícios do que Lacan vai desenvolver em seu seminário De um Outro a outro quando apresenta o inconsciente como “um discurso sem palavras”. Vamos considerar o discurso como o encadeamento apenas do som desses significantes Uns do dito que fazem despertar o dizer. Estou retomando essas definições para localizar o que no inconsciente se manifesta do ser, como ex-sistência do sujeito da experiência analítica: “sou no lugar onde vocifera que o universo é uma falha na pureza do não ser” (p. 834, dos Escritos, Subversão do sujeito e análise do eu). É o próprio Lacan que acrescenta no mesmo texto dos seus Escritos: é o “Gozo, cuja falta tornaria vão o universo, a existência”. Ali está a ex-sistência do sujeito marcado pela sua singularidade.
Lacan havia partido da associação livre para abordar os interstícios da fala em que Um sujeito da fala se manifesta. Para só depois de um longo percurso chegar até uma nova definição de inconsciente na Introdução alemã de um primeiro volume dos Escritos em 1973, quando afirma que o inconsciente é aquele que “trabalha sem pensar, nem calcular, nem tampouco julgar, e que, ainda assim, o fruto está aí: um saber que se trata de decifrar na experiência de análise, já que ele consiste em um ciframento”. E continua: “o que pensa, calcula e julga é o gozo”, citação de seu seminário Ou pior. É como cifra de gozo que o sujeito da experiência analítica se manifesta na transferência. Ou dizendo de outra forma: é quando o inconsciente se manifesta como gozo “sentido/ouvido” na transferência e assim sinaliza na experiência analítica a direção do tratamento. A transferência seria então um recurso do analisante contra a repetição enquanto tické, contra a inconsistência do Outro, enquanto falta de significante. Aí o real se funda por não ter sentido, parece não ter sentido, mas cujo sentido é o de gozo do sinthoma.
Cito Lacan em seu seminário O sinthoma, p. 62: “A escrita me interessa, posto que penso que é por meio desses pedacinhos de escrita que, historicamente entramos no real, a saber, que paramos de imaginar. A escrita de letrinhas matemáticas é o que suporta o real”.
Eliane Z Schermann
AME da EPFCL- RDB -Brasil
Fevereiro / 2022







