Prelúdio VII
O ato analítico e a Escola de psicanálise
Luis Izcovich¹
O que sabe um psicanalista sobre a psicanálise? O que ele sabe situa-se, sobretudo, a partir de sua própria experiência. Uma análise levada até o seu termo – ou seja, até o irredutível do sintoma – implica, antes de mais nada, que o analista lacaniano é alguém que não se orienta a partir de uma identificação com o seu analista. Trata-se de uma orientação por um saber que não provém de uma identificação. Se excluirmos a identificação, resta a questão de o que constitui a orientação do analista. Lacan (1967a/2001) forjou uma concepção centrada na proposição de que “o analista só se autoriza de si mesmo”. Esta é a consequência lógica de sua elaboração sobre o ato. Se a análise prepara o analisante para o encontro com o ato, deduz-se daí que a passagem à posição de analista – desde que seja um verdadeiro ato – depende de uma autorização sem Outro. Isto não justifica, portanto, de modo algum, um “tudo é permitido”. Significa, fundamentalmente, que o analista só se autoriza de si mesmo com a condição de ter atravessado a experiência de sua própria análise. Não se trata, pois, da parte de Lacan, de uma proposição liberal que afirmaria que cada um se autoriza quando bem entende. Pelo contrário, a ênfase é colocada na responsabilidade daquele ou daquela que assume o risco de ocupar o lugar de analista, ao mesmo tempo em que enfatiza a dimensão de uma solidão necessária. O sujeito está sozinho no instante da travessia própria ao ato, e está igualmente sozinho na tarefa de ser analista, onde se renova para ele a necessidade de operar a partir do ato. É unicamente se a travessia da experiência da análise se revela ser um ato que aquele que se torna analista poderá ocupar o lugar de semblante de objeto a. Isto significa que o analista não é sujeito. O que constitui o ser do analista é o que resta do sujeito uma vez atravessado o plano das identificações, ou seja, um resto (ou dejeto), como dizia Lacan.
É uma questão crucial de nossa época: dizer-se lacaniano pode encobrir realidades diversas, e por vezes até mesmo uma autorização baseada em uma impostura. Aliás, se admitirmos que “o analista só se autoriza de si mesmo”, quem pode pretender assumir a função de denunciar a impostura? Esta é a razão pela qual Lacan inventou um dispositivo institucional intimamente ligado à experiência da análise. Com efeito, cabe à Escola de psicanálise não uma função de controle, mas a de colocar à prova aqueles que desejam se confrontar com os outros diante da questão enigmática de o que é uma psicanálise – lacaniana, acrescentemos.
Há um ponto de partida para estas questões. É o que Lacan (1967-1968/2024) levanta no seu seminário O ato psicanalítico. Trata-se de saber qual seria o ato capaz de produzir um desejo novo. Não é anódino que, em vários de seus textos, para evocar o futuro da psicanálise e as modalidades de sua transmissão, Lacan faça referência ao estilo de Freud e também ao estilo do ato. Portanto, parece-nos judicioso abordar a seguinte questão: sob que condições o discurso analítico pode permanecer como sintoma de nossa época, sem se deixar absorver pela prescrição social e sem, por isso, se marginalizar numa posição de exclusão em relação aos discursos dominantes?
Em outras palavras, o nosso interesse recai sobre a responsabilidade do analista em fazer ex-sistir uma terapêutica diferente das outras. A abordagem dos estilos do ato em sua relação com a emergência de um novo desejo torna-se, portanto, essencial; ela nos reconduzirá ao ponto da incidência da Escola quando se trata de sustentar que o analista permanece sintoma no seio dos discursos.
Notemos o que constitui a especificidade do ato analítico: ele implica o questionamento do Outro e de sua estrutura de falha.
É daí que Lacan extrai as consequências para o ato psicanalítico, que consiste na passagem da tarefa de analbisante à posição de psicanalista; é o ato pelo qual o analisante, autorizando-se de si mesmo e de alguns outros, se autoriza a receber analisantes. O ato psicanalítico é, pois, o momento eletivo em que o analisante passa ao estatuto de psicanalista.
Neste sentido, o ato psicanalítico é o ato que institui alguém como analista. Existem, por outro lado, os atos que ele realiza durante a análise. Estes derivam do ato fundamental de se autorizar como analista e se inscrevem nesta sequência que eles contribuem, por conseguinte, para formar.
Deduzamos disto, portanto, que o desejo do analista tem uma estrutura de ato; ele não se analisa. Este ato é fundador e serve, portanto, de referência para os atos realizados durante a análise. Mas isso também se insere na perspectiva de nossa concepção de Escola.
Ao tornar pública a sua Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola, Lacan (1967a/2001) considera que pratica um ato, no mesmo sentido do que dele diz no seminário contemporâneo a esse acontecimento. Mais tarde, em 1975, em seu seminário RSI, afirma que o “dizer é um ato” (Lacan, 1975). O ato, com efeito, tem lugar a partir de um dizer, e transforma o sujeito. Assim se constrói um par de opostos: de um lado, a indeterminação do sujeito, que marca a posição deste até o final da análise; de outro lado, a certeza do ato. O ato supõe, portanto, uma ultrapassagem da inibição, a elucidação do desejo e a coragem de concluir, mas também sua demonstração, suas provas, sem as quais ele não poderia ser mais do que uma resposta intuitiva do sujeito. Neste sentido, o ato enlaça a análise e a Escola.
Efetivamente, o ato supõe uma mudança sem retorno. Mas, como saber disso antes de sua realização? Como ter a certeza de um ato? Lacan (1967b/2001) formula uma frase decisiva a propósito do ato: “C’est ce qui dépend de ses suites”, “O ato depende das suas consequências”. Porque só se sabe depois que houve uma mudança. Isto nos esclarece a respeito das razões que levam Lacan a conceder um lugar eminente ao ato analítico, ao ponto de o distinguir do conjunto dos atos e de fazer dele o modelo que lança luz sobre qualquer ato. O ato psicanalítico, tal como a Escola, constitui, portanto, um ponto de perspectiva tornado presente pelo analista a cada entrada em análise.
Traduzido pelo autor
Revisão da tradução: Alessandra Carreira
Referências Bibliográficas
LACAN, Jacques. (1967a). Proposition du 9 octobre 1967 sur le psychanalyste de l’École. In: Autres écrits. Paris: Éditions du Seuil, 2001.
LACAN, Jacques. (1967b). Discours à l’EFP. In: Autres écrits. Paris: Éditions du Seuil, 2001. p. 261.
LACAN, Jacques. (1967-1968). Le Séminaire. Livre XV: L’acte psychanalytique. Paris: Éditions du Seuil, 2024.
LACAN, Jacques. (1974-1975). Leçon du 15 avril 1975. In: Le Séminaire, livre XXII: R.S.I. Paris, 1975. Inédit.
Novembro, 2026







