Prelúdio IV
O sintoma e o laço social na clínica psicanalítica contemporânea
Alessandra Silveira¹
A biologia dá forma ao corpo, a linguagem faz o sujeito, a história tece os fios que o sustenta ao longo da experiência. Mas é o desejo que inaugura o ser. Alessandra Silveira
Realizar encontros para estudar, transmitir e discutir a clínica psicanalítica em sua relação com o laço social é uma tarefa preciosa e desafiadora. Trata-se de escutar o singular do sujeito inserido nesse laço, ao mesmo tempo em que se enfrenta a clínica na maré contemporânea, marcada pelo individualismo excessivo, pelas urgências das relações e pela fragilidade dos vínculos.
O discurso atual revela um sujeito fechado em torno da própria imagem, indiferente ao outro, girando em torno de si e de um excesso produtivo que não abre espaço para a subjetividade. Ao se perceber furado, muitas vezes sintomatiza a ansiedade — um sintoma que se manifesta no corpo, mas não necessariamente no corpo biológico.
Nesse sentido, o sintoma não é da ordem do orgânico, mas uma produção dotada de significantes e significados que dão forma ao desejo inconsciente que, quando barrado pelo recalque, encontra uma via alternativa de satisfação. Como lembra Izcovich (2018), citando Freud, o sintoma está necessariamente articulado ao inconsciente: satisfaz o desejo de modo disfarçado, enquanto pune o sujeito com sofrimento. Esse disfarce aparece como enigma, que só pode ser decifrado pela palavra.
Lacan (1953/1998), ao circunscrever o lugar do sintoma na clínica, esclarece: “(…) o sintoma se resolve numa análise de linguagem, pois ele próprio é estruturado como uma linguagem, já que é a linguagem da qual a fala deve ser libertada.” (p. 270). Assim, como aponta Izcovich (2018), “(…) a psicanálise é uma prática de tradução: traduzimos sintomas e sonhos, mas sempre há um limite — a repressão originária.” (p. 76). Nem tudo passa pela linguagem. O sintoma não é totalmente eliminado pela palavra: há um “resto” intraduzível, que se torna uma forma particular de o sujeito organizar seu gozo.
Entretanto, se na clínica psicanalítica o sujeito precisa falar, no capitalismo ele é silenciado pelo consumo e pelo excesso. Quando o sintoma opera como gozo, o sujeito não quer saber: deseja apenas um produto que o faça desaparecer. Daí os adoecimentos contemporâneos — adições, compulsões, depressão por esgotamento, crises de ansiedade e síndrome do pânico — manifestações de um gozo bruto, isolado e desvinculado do laço social.
A contemporaneidade, marcada pela primazia da imagem, pelos objetos de consumo e pela exposição do corpo, faz uma questão: o que acontece com a palavra e com o simbólico quando a imagem e o objeto parecem ocupar o lugar daquilo que antes podia ser endereçado ao Outro? Que desafio! Sustentar um lugar em que o sujeito possa falar, para além daquilo que lhe é oferecido como objeto de satisfação. Lacan (1953/1998) nos lembra que o mundo das palavras cria o mundo das coisas. O sujeito não busca no outro a chave do objeto desejado, mas o reconhecimento. É “(…) a força combinatória dos equívocos que organiza o impulso do inconsciente.” (p. 269).
Freud (1930/1974), em “O Mal-Estar na Civilização”, lembra que a vida em sociedade exige renúncia de parte dos impulsos individuais. As leis, normas e instituições regulam esses impulsos e protegem a comunidade. Além disso, os vínculos sociais se sustentam por identificações afetivas: compartilhamento de ideais, valores, crenças e figuras de referência.
Lacan (1953/1998), ampliando essa discussão, situa o sujeito no discurso capitalista, sustentado pela ilusão da posse do objeto, bastando-se a si mesmo e sem disposição para investir no outro. O capitalismo promete um sujeito feliz e pleno, tentando eliminar a falta estrutural que, paradoxalmente, move o sujeito. Produz incessantemente objetos de consumo vendidos como soluções. Nesse cenário, o laço social se mostra frouxo, à deriva, pois o simbólico se desfaz em fios soltos.
A clínica psicanalítica, nesse contexto, oferece ao sujeito um espaço distinto das exigências de produtividade. Dá lugar à fala e à escuta, reconhecendo que o sofrimento está ligado à história, às relações familiares e aos laços sociais. Não busca eliminar sintomas nem apagar a singularidade, mas possibilitar o encontro com o desejo e a construção de novos laços.
Ademais, a escuta clínica possibilita ao sujeito uma travessia: solitária, mas não só. Amparada na palavra, no dito e no esquecimento — como meia verdade que se diz quando é possível lembrar. Assim se faz um sujeito, pelo desa(fio): um fio que conduz sua história singular ao resgate de seu laço social.
Referências bibliográficas
FREUD, Sigmund. (1930). “O mal-estar na civilização”. In: Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1974. v. XXI, p. 75-171.
IZCOVICH, Luis. As marcas de uma psicanálise. São Paulo: Aller, 2018.
LACAN, Jacques. (1953). “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise”. In: Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1998, p. 238-324.
Setembro, 2026
¹ Psicanalista, Analista Praticante, Membro de Escola da EPFCL-Rede Diagonal Brasil.




