Prelúdio III
A raiz da Extensão: a expansão do ato
Silvia Fontes Franco¹
O acontecimento Freud (Lacan, 1968-1969/2008) introduz uma subversão no campo da ética a partir da descoberta do inconsciente, colocando os fundamentos da ação psicanalítica. Lacan situa tal acontecimento do Real como campo axial da ética da psicanálise. Dessa subversão, coloca-se para a psicanálise o problema de sua transmissão e de sua incidência no campo dos discursos de uma época. Freud e Lacan estiveram atentos aos efeitos que os discursos de seu tempo, atravessados por preconceitos e ideologias, puderam produzir sobre a psicanálise. Trata-se de um reviramento: não apenas a psicanálise lê a sua época, mas também aquilo que se produz no campo dos discursos em uma dada época tem efeitos sobre a psicanálise e a transmissão de sua experiência (Lacan,1967/2003; Soler, 2000). Isso se articula à formação do analista e à permanência da psicanálise no mundo, recolocando a transmissão a partir da experiência em intensão.
Em diálogo com o tema do X Colóquio, “A clínica psicanalítica e o laço social hoje”, é preciso considerar que a clínica psicanalítica se situa no ponto da intensão: o Real em jogo na experiência da análise, ou seja, o ato, a transferência, o desejo de analista, o sinthoma. Por isso, clínica psicanalítica e laço social não são campos distintos que em algum momento se encontram. O “e”, tal como empregado no tema do Colóquio, põe em jogo a articulação entre a experiência da análise, tomada a partir do Discurso do Analista, e os outros discursos que estruturam o laço social.
O ato analítico modifica a relação do sujeito com o saber, a verdade e o gozo, fazendo surgir, sob contingência, o desejo de analista. É a partir dessa operação que a experiência analítica sustenta sua abertura para o Real e encontra, na articulação entre intensão e extensão, uma formulação decisiva: “A raiz da experiência do campo da psicanálise, colocado em sua extensão, única base possível para motivar uma Escola, deve ser encontrada na própria experiência psicanalítica, bem entendido tomada como intensão.” (Lacan, 1967/2003, p. 572). Assim, a experiência em intensão, ao sustentar a relação com o Real e o impossível, encontra na Escola um campo de transmissão. A expansão do ato faz incidir no campo dos discursos os efeitos de uma operação que inaugura uma modalidade singular de laço.
Lacan (1967/2003) situa nisso uma dimensão estrutural ao afirmar que “(…) esse real provoca seu próprio desconhecimento, ou até produz sua negação sistemática.” (p. 249). No nível da extensão, essa dimensão se apresenta em três referenciais situados entre o Simbólico, o Imaginário e o Real. Ele os trata como três pontos de fuga, nos quais localiza três facticidades que possibilitam apreender como algo da organização social produz efeitos na própria psicanálise, seja no mito edipiano, na organização das sociedades psicanalíticas ou na segregação. Permitem, ainda, pensar a articulação entre intensão e extensão sem reduzi-las à oposição entre interior e exterior. Nessa perspectiva, os pontos de fuga não convergem para um ponto de síntese, mas fazem aparecer uma hiância própria da psicanálise, como enfatiza Rithée Cevasco (2026), em sua retomada da Proposição de 1967. A partir dessa hiância, podemos retomar o Real em jogo na experiência analítica e o impossível, marcando a abertura em torno da qual a experiência analítica se sustenta. É desse ponto que podemos perguntar: de que modo cada discurso responde ao que não se escreve? E, para a psicanálise, o que pode surgir de novo no laço social a partir desse ponto de impossibilidade? A questão do novo não se reduz, assim, à produção de uma resposta inédita aos impasses de uma época: ela toca o que a experiência analítica pode produzir como efeito no próprio laço.
É nessa direção que poderemos retomar o que Lacan chama de “efeito revolucionário do sintoma” (Lacan, 1967-1968/2025), bem como a formulação de Colette Soler (2026) de que a psicanálise já produziu uma nova subjetividade: o psicanalista.
Referências Bibliográficas
LACAN, Jacques. (1967). “Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola”. In: Outros Escritos. Rio de janeiro: Jorge Zahar Editor. 2003, p. 248-264 e 570-586.
LACAN, Jacques. (1967-1968). O Seminário, Livro 15: O ato psicanalítico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2025.
LACAN, Jacques. (1968-1969). O Seminário, Livro 16: De um Outro ao outro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.
CEVASCO, Rithée. “Proposición 1967 y puntos de fuga”. Seminario Escuela, 12 jun. 2026. Disponível em: https://www.youtube.com/@FFCLE. Acesso em: 01 set. 2026.
SOLER, Colette. “Ni sauvage, ni fictive”. In: Psychanalyse, École et garantie: La garantie venant de l’École. Link, n. 6, abr. 2000.
SOLER, Colette. “Extensión del psicoanálisis: Ética y política”. Intervenciones en las Jornadas realizadas por la Federación de los Foros del Campo Lacaniano de España, FFCLE – F8, 2026. Disponível em: https://www.youtube.com/@FFCLE. Acesso em: 01 set. 2026.
Setembro, 2026



