Prelúdio II
O ato analítico e o laço social
José Antonio Pereira da Silva¹
De acordo com Lacan (1967-1968/2003), o ato psicanalítico, além de nós, nunca foi situado e muito menos questionado, e ele o supõe a partir do momento eletivo em que o psicanalisante passa a psicanalista.
Entretanto, sabemos que foi o ato inaugural de Freud que criou a psicanálise. Este ato de Freud, além de fundar a psicanálise, abriu o inconsciente à sua formalização. O ato fundador de Freud se renova em cada análise, uma vez que é o analista quem autoriza o seu início.
Lacan (1967-1968/2025), a partir da experiência clínica psicanalítica e do seu ensino, introduz o conceito de ato psicanalítico no campo da ética. Demonstra que é o analista, com seu ato, que dá existência ao inconsciente, promovendo a psicanálise no particular de cada caso. O psicanalista, ao autorizar o início de uma análise, faz um ato psicanalítico, dando início às condições para analisar o inconsciente, cujo estatuto não é ôntico (não se ocupa com o campo do ser), mas sim ético, porque depende do ato do analista e de suas consequências na experiência psicanalítica.
O ato psicanalítico é, fundamentalmente, a operação que sustenta e coloca em movimento o discurso do analista como um laço social inédito no campo dos discursos. Enquanto os discursos do Mestre e o Universitário tentam coletivizar e tamponar a falta através do conhecimento ou da lei, o laço social proposto pela psicanálise, a partir do discurso do Analista, se sustenta justamente a partir do resto, do objeto a na posição de agente, convocando o sujeito a se haver com a sua própria divisão.
A psicanálise trabalha com o princípio de que a fala faz laço, colocando o inconsciente em exercício a céu aberto naquilo que se nomeia como “o social”. Assim, torna-se necessário que se estude a função da palavra para aquilo que faz laço, como nos diz Soler (2011-2012/2016) em seu seminário “O que faz laço?”.
Para este estudo, Soler (2011-2012/2016) destaca que é preciso partir daquilo que não faz laço – que é o real. O real fora do simbólico, o real do corpo vivo que se goza, por estar marcado pelos uns de lalíngua, ou seja, pelo gozo opaco do sintoma.
Freud (1921/1976) colocou a questão sobre o que pode ligar os corpos. Postulou que, essencialmente, o autoerotismo e o narcisismo são os dados originários dos indivíduos, os quais se fundam sobre o corpo como Um. Esse corpo é o primeiro objeto do sujeito. Mas, como é possível que ele invista a libido em outros objetos, além do objeto primário? Para Lacan, aquilo que permite ao corpo viver socialmente é o aparelho de linguagem e o fato de sermos seres sensíveis a ela que, enquanto um operador, tem efeito de falta a ser, simbolizada pelo falo, como efeito inerente ao simbólico.
Lacan (1969-1970/1992), no seminário “O Avesso da Psicanálise”, formalizou os quatros discursos (do Mestre, da Histérica, do Universitário e do Analista), definindo explicitamente o discurso como “o laço social fundado na linguagem”, ou seja, uma estrutura que regula as posições de poder, saber, verdade e gozo na civilização.
No discurso analítico, que tem no lugar do agente o objeto a, o analista é “(…) o que pode ocupar ocasionalmente o seu lugar e nele fazer reinar o objeto a.” (Lacan, 1972-1973/1985, p. 129), sustentando o laço analítico, que coloca em jogo e visa a diferença, a singularidade. Trata-se de uma visada diferente dos outros discursos, que visam o Um unificante e homogeneizante, as identificações, o ideal do Outro ou o Eu ideal que ordenam o laço (Soler, 2011-2012/2016).
Termino essa reflexão inicial sobre “o ato analítico e o laço social”, destacando que o ato analítico é aquele que, parafraseando Lacan (1972-1973/1985), tem efeito sobre todas as ordens de discursos, uma vez que coloca o objeto a no lugar de semblante. Por isso, ele pode sustentar o laço analítico, enquanto um tipo de laço social, mais conveniente para fazer o que é justo fazer, a saber: interrogar como saber o que é da verdade singular de cada um.
No X Colóquio da EPFCL – RDB poderemos desenvolver essas e outras questões tais como: não seriam as duas vertentes do ato analítico (a do analisante no final da análise e a do analista no início) um laço em que o ato se transmite?
Referências Bibliográficas:
FREUD, Sigmund. (1921). “Psicologia de grupo e a análise do Ego”. In: Obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1976, v. XVIII, p. 91–174.
LACAN, Jacques. (1967-1968). O Seminário, Livro 15: O ato psicanalítico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2025.
LACAN, Jacques. (1969-1970). O Seminário, Livro 17: O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.
LACAN, Jacques. (1972-1973). O Seminário, Livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
LACAN, Jacques. (1967-1968). O ato psicanalítico. Resumo. In.: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
SOLER, Colette. (2011-2012). O que faz laço? São Paulo: Escuta, 2016.
Agosto, 2026


