Prelúdio V
A Escola, refúgio do discurso analítico
Fernando Martínez
A psicanálise nasceu do encontro com aquilo que o discurso médico da sua época não sabia como nomear: o mal-estar que persiste para além de qualquer explicação orgânica, o sintoma que fala sem que o sujeito saiba o que diz e que sofre sem que nenhum conhecimento estabelecido seja suficiente para apaziguá-lo. Freud não encontrou ali uma lacuna de conhecimento a preencher, mas sim outro estatuto do saber: um que não se sabe a si próprio e que só se produz, a posteriori, na transferência. Essa é a grande ruptura epistêmica da psicanálise, que desloca o lugar do saber do objeto observado para o sujeito que, sem o saber, sofre. Desde essa origem, a clínica psicanalítica sustentou-se numa elaboração singular sobre o sofrimento humano, cuja concepção do sintoma não é um erro a corrigir nem um déficit a compensar, mas sim uma formação que não se reduz a nenhuma norma e que só pode ser abordada a partir de uma escuta particular.
O que acontece hoje com essa concepção, quando o laço social afetado pelo tecno-capitalismo transformou as condições temporais da demanda, devido à urgência de respostas classificatórias que a satisfaçam?
O laço social afetado pelo capitalismo organiza-se sob imperativos de relançamento do gozo que encontram eco na prática analítica, como a urgência da eficácia, a procura de bem-estar através de um consumo terapêutico, a medicalização do mal-estar, a aceleração tecnológica que remodela as formas de comunicar, desejar e sofrer. Imperativos que não são inócuos, uma vez que os seus efeitos produzem processos de individualização, corroendo o tempo necessário para que o mal-estar se articule como pergunta, substituindo a escuta pelo protocolo e a singularidade pela categoria diagnóstica. Estes imperativos compartilham uma mesma lógica: a da generalização estatística, que substitui o caso pela amostra, a pergunta pelo indicador e o sintoma pela síndrome, fenômeno ou perturbação classificável.
Neste contexto, questionar a clínica analítica e o laço social na atualidade implica interrogar-se sobre as formas em que seus fundamentos — a transferência, a interpretação, o ato analítico, a orientação da cura — continuam a operar quando o laço social, atravessado pelo discurso capitalista, os desvaloriza, produzindo fenômenos que exigem repensar as condições em que o discurso analítico pode produzir-se. A aposta da psicanálise reside precisamente em sustentar que o caso singular produz um saber num laço com o outro que nenhuma série estatística pode substituir, uma vez que a singularidade não desaparece por baixo dos números.
Essa aposta, na clínica lacaniana, não se sustenta na solidão, mas, pelo contrário, requer um espaço onde o saber que cada cura produz possa ser retomado e posto a trabalhar com os outros. A Escola de psicanálise, tal como foi concebida por Lacan, é central para uma elaboração que tente responder a esta questão, na medida em que é o local onde o discurso analítico se cultiva, onde os efeitos do ato analítico — que só podem ser formalizados a posteriori — encontram um espaço de elaboração coletiva entre os díspares, uma vez que a formação permanente do analista não é alheia a essa elaboração, na medida em que não há saber prévio que garanta o ato, nem título que o certifique.
O que a Escola acolhe é precisamente o que o ato deixa como resto, e o relança, provocando uma experiência que não se transmite como doutrina, mas que exige, cada vez, ser reelaborada no contato com os impasses da própria cura. O discurso analítico exige, em cada época e em cada cura, que alguém sustente o desejo de ocupar esse lugar de causa que o põe em marcha, encontrando na Escola o âmbito propício para poder pensar a sua ex-sistência no contexto da época que lhe cabe percorrer. Assim já o afirmava Lacan (1964/2012) no “Ato de Fundação da Escola Freudiana de Paris”:
Este termo [Escola] deve ser entendido no sentido em que antigamente designava certos locais de refúgio, e até mesmo bases de operação contra aquilo a que já se podia chamar mal-estar na cultura. Ao atermo-nos ao mal-estar da psicanálise, a Escola pretende dar espaço não só a um trabalho de crítica, mas também à abertura do fundamento da experiência, ao julgamento do estilo de vida em que esta desemboca. (p. 256)
Como é que esse desejo se produz e se mantém nas condições atuais é uma das questões que este colóquio irá relançar para um trabalho em comum.
Tradução: Margareth Felipe
Referência Bibliográfica
LACAN, Jacques. (1964). “Ato de Fundação da Escola Freudiana de Paris”. In: Outros Escritos. Buenos Aires: Paidós, 2012.
Setembro, 2026





