Prelúdio VI
A clínica psicanalítica e o laço social hoje:
uma questão que se impõe
Stella Casanova¹
O discurso do capitalista, de mãos dadas com as tecnociências, estende cada vez mais os seus domínios, multiplicando as formas de universalização, os imperativos de consumo e os procedimentos de padronização. Trama discursiva que, sob a promessa de aliviar o sofrimento humano, tende a fazer entrar o singular na lógica do ‘todos iguais’ e a precipitar os sujeitos em uma oferta sempre renovada de objetos de consumo. Uma armadilha, pois ali onde o sujeito se forja a partir de um objeto oferecido como ilusão de plenitude, cada objeto não faz senão relançá-lo na busca por outro, já que nenhum deles preenche o desejo.
Diante desse discurso, que inunda o acontecer humano com imagens e palavras de ordem que rejeitam ferozmente aquilo que torna cada sujeito irredutível, torna-se necessário para nós, como analistas, manter uma posição permanente de interrogação, reflexão e elaboração sobre a nossa prática clínica e a sua relação com o laço social, de forma a não ceder diante de uma lógica que tende a suprimir aquilo que só pode se situar no um a um: a singularidade do gozo de cada sujeito.
Esta posição que devemos manter encontra a sua orientação no discurso analítico. Um discurso que, como laço social, não se sustenta em uma posição de domínio, nem na administração de um saber que se teria de antemão sobre o sujeito, mas sim na hipótese do inconsciente, condição para que possa emergir o dizer do sujeito.
Um dizer do sujeito que não se reduz aos significantes, ideais ou vereditos mediante os quais os discursos comuns pretendem ordenar a sua vida; um dizer cuja emergência só é possível na experiência de uma análise, que se inaugura a partir de “um dizer analista e um dizer analisante” (Soler, 2026).
De sua parte, o ‘dizer analista’, pela via do ato interpretativo, procura ir contra os sentidos que se desdobram na cadeia associativa do analisante, fazendo corte em seus ditos para que possa surgir algo do inconsciente em sua dimensão real. É nesse corte que o sujeito pode se deparar com um dizer que, ao já não fazer sentido, permite entrever algo daquilo que comanda o seu modo de gozar.
A experiência analítica não consiste, portanto, em impor ao sujeito um saber, mas em fazer surgir um saber singular ali onde algo insiste, para que ele possa situar a sua relação com aquilo que lhe faz sintoma. De modo que, frente aos discursos do nosso tempo que prometem corrigir, gerir e resolver o mal-estar mediante respostas que valem para todos, a experiência analítica restitui ao mal-estar a sua dimensão de enigma, ali onde se faz presente para o sujeito um ponto de real que não se deixa reduzir a nenhuma resposta universal.
Nesse sentido, o discurso analítico opera pela via do que Lacan antecipa na Alocução sobre a psicose da criança, quando formula: “Quando se verá que o que prefiro é um discurso sem palavras?” (Lacan, 1967, p. 391). Um discurso que não busca agregar sentido à palavra analisante, nem fazer valer um saber sobre ele, mas sim pôr a trabalhar esse saber que se cifra no sintoma e que concerne ao modo singular de gozar.
Para alguns sujeitos, a experiência de uma análise pode abrir um caminho em direção a esse real em torno do qual se ordena o seu sofrimento, e frente ao qual não se trata de encontrar uma solução definitiva, mas talvez um modo diferente de fazer laço, sem permanecer capturado na solidão dos objetos que o mercado coloca à sua disposição.
Tradução: Alessandra Carreira
Referências Bibliográficas
LACAN, Jacques. (1967). “Alocución sobre las psicosis del niño”. In: Otros escritos. Buenos Aires: Paidós, 2021.
SOLER, Colette. (2026). La Soledad del Acto. Estar Solo y la Escuela. Conferencia en Tarragona en el marco del Seminario Escuela del FFCLE F8, Federación de Foros España, 20/02/2026.






