O PASSE NÃO É O FIM
Patrick Barillot
Psiquiatra. Psicanalista. AME da EPFCL- França
“O passe não é o fim”, este foi o comentário que o cartel do passe me endereçou junto com a notícia da minha nomeação de AE. Ele vinha responder, assim, às interrogações que eram minhas neste momento da análise. De fato, tendo me engajado no dispositivo do passe sem haver terminado a análise, eu me perguntava, por antecipação, como iria lidar com a decisão do cartel, fosse ela positiva ou negativa, em relação à questão do fim da análise. Na época, eu me debatia, de forma bastante confusa, com a ideia de que o passe, autenticado pelo cartel, pudesse sancionar o fim da análise. Esta aproximação não era especificamente minha, já que esta tese circulava em nossa comunidade e eu penso que ela circula ainda hoje e que o discurso que poderia desmenti-la é bastante frágil. Ao mesmo tempo, eu calculava o risco real de um fim prematuro de tratamento que comportaria uma nomeação no curso de uma análise.
A fim de desfazer esta problemática e evitar o perigo de uma saída antes do término, pelo simples fato do anúncio, eu esboçava uma solução tentando responder à questão do fim antes da resposta do cartel sobre o passe. A aposta era a de chegar a dissociar estes dois momentos da análise, não situando um como tributário do outro, o que o cartel do passe veio reafirmar em sua mensagem.
Não me parece inútil fazer menção a essas reflexões e endereçá-las àqueles que, como analisantes, desejariam submeter-se ao dispositivo do passe. Isso poderia, talvez, evitar que eles se debatessem com esta questão do momento do passe em sua relação ao final de análise que um tropismo próprio ao discurso sobre o passe leva a sobrepor. De fato, esta tendência a considerar o momento do passe como a assinatura do fim da análise atravessa um bom número de propostas sobre o tema. Além disso, não se pode impedir de supor que possa ser encontrada, muito naturalmente, no seio dos cartéis que decidem a nomeação. O perigo sendo, então, o de recusar um passante em razão de não ter finalizado a análise.
Sobre esse ponto preciso da disjunção do passe e do fim, numerosas são as referências de Lacan onde são claramente distinguidos esses dois tempos da análise. Aqui não é o lugar de desenvolvê-las, tendo sido feito em outro lugar. No entanto, citarei apenas uma, raramente evocada, porque contém uma indicação precisa do momento em que Lacan esperava que o analisante, na análise, viesse testemunhar o passe. Esta referência está na lição preliminar do seminário RSI de 19 de novembro de 1974. Ela se situa em um parágrafo onde Lacan citava suas dificuldades para tornar tangível o passe em sua Escola, na qual lhe parece estranho “que seja de alguns, propriamente falando, que ainda não se encontram no ponto de autorizar-se pela análise, mas que estão a caminho, que venha esta resistência a isso que os estimula”.
Ele precisa, em seguida, que estimula esses analistas – que não praticam ainda a análise, que não se dizem analistas, mas que estão prestes a se tornarem – a testemunhar o ponto onde estão, para tornar efetivo o passe em sua Escola. Acrescenta que este ponto específico é o da entrada no discurso analítico e que o testemunho deveria trazer como aí se entra. Neste momento tomamos uma maneira de definir o passe como a entrada no discurso analítico. Assim definido e situado na temporalidade da análise, o momento do passe não pode se confundir com o momento do fim.
Se esta observação é capital para os cartéis do passe no estabelecimento de critérios de nomeação, não o é menos para os analisantes tentados pela experiência do passe. Esses últimos – na falta de terem, claramente, no espírito, esta disjunção e, considerando o passe como a avaliação de um fim de análise cumprida – arriscam recuar de sua decisão de entrar no dispositivo no momento em que terão, enfim, a porta de saída da análise impulsionada. O risco não é tanto no adiamento da decisão, que, neste caso, só faria deslocar no tempo o testemunho, mas no abandono, pura e simplesmente, da veleidade do início por uma espécie de fracasso do momento mais propício ao testemunho. Aqui eu formulo uma hipótese que submeto à discussão dos mais experientes: nem todos os momentos da análise valem para testemunhar. E, da mesma maneira que antes da hora não é a hora, e que após a hora não é mais, eu me pergunto se o adiamento, pelos analisantes, da decisão a se engajarem no testemunho, à espera do fim da análise, não os afastaria irresistivelmente do momento mais favorável para virem atestar o seu passe.
Tradução de Sonia Campos Magalhães.
Patrick Barillot (Paris, França) in: Wunsch-Boletim internacional da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano, número 5, março de 2006.






