Arte e psicanálise: tratamentos do real
Marcia de Assis ¹
“Uma parte de mim
é só vertigem
outra parte,
linguagem
Traduzir uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?” (Ferreira Gullar) ²
Ao trazer como epígrafe um fragmento do poema Traduzir-se, aponto a arte literária, mais especificamente a poesia, seja ela posta em versos, seja em prosa, uma vez que a poesia não está
confinada nos versos do poema. Entre a psicanálise e a poesia, um corre-dor. Nele faço caber um limite e a borda. Limite, o que separa. Borda evocando o litoral para falar da interseção: quando o
mar se debruça na areia. Naquela faixa de areia molhada encontra-se a interseção. Entre as duas casas, a linguagem transita no corre-dor, morada do equívoco significante. A insistência em grafar deste
modo, corre-dor, serve para salientar que haverá tradução nos dois campos, na psicanálise e na poesia, cada uma com os seus recursos. Em ambas, o afeto que escorre metonimicamente poderá ser traduzido em significante. Afeto é um significante que desliza, um significante na dimensão de gozo³, que funciona como um afeto. Quer dizer que o falante foi afetado por um significante fora de sentido,
cujo sentido está conservado no real. Na clínica psicanalítica o que vem deter o deslizamento incessante é a regra fundamental, a associação livre sob atenção flutuante, permitindo que passe à
dimensão metafórica.
Para a poesia, outra regra foi estabelecida. Manoel de Barros declarou: “em poesia, que é voz de poeta, que é voz de fazer nascimentos, o verbo tem que pegar delírio”4. “Estou cheia de acácias balançando amarelas” – anunciou Clarice Lispector no livro Água Viva, uma prosa poética.5
A dimensão metafórica é de interesse da psicanálise. A poesia é produtora de metáforas se o verbo pegar delírio. Cada uma em sua casa, e um corre-dor entre elas, trata o real impossível de dizer.
A poesia vai gotejar rimas, a experiência analítica, uma tradução singular, um fisgamento de pedaços de real, o real de lalangue. Através da tagarelice sob atenção flutuante o dispositivo analítico toca o
real, o real do inconsciente, pois isso fala e, ao falar, goza. Coalescência do significante e do gozo, tese da qual a experiência psicanalítica vai se ocupar. Há um saber insabido, saber na dimensão do
gozo, saber inconsciente, que se tem acesso por meio da psicanálise.
O real, por definição, é o que está fora do simbólico, apenas nos aproximamos dele. Quer dizer, o real ao qual se acede é sempre relativo aos modos de aproximação pela via da linguagem.6
Há um real fora do simbólico, porém, com a operação de linguagem sobre o vivente, podemos considerar um real próprio ao simbólico que se apresenta como impossível de dizer. Ao falar entra
em jogo o impossível de dizer. Escrevemos S de A barrado () para representar o inefável, ou seja, falta um significante no Outro.
As vias traçadas pela linguagem permitem modos de aproximação do real, eis aí o que estou chamando de modos de tradução, na psicanálise e na arte literária, a poesia. Cada uma com os seus
recursos, modos de aproximação do real indizível. Faço um recorte do texto O aturdito, no intuito de ressaltar que o poeta e o psicanalista têm seus modos próprios de realizar as aproximações do real
pela via linguageira:
“Afirmo que todos os lances são permitidos aí, em razão de que, estando qualquer um ao alcance deles, sem poder reconhecer-se nisso, são eles que jogam conosco. Exceto quando os poetas o
calculam e o psicanalista se serve deles onde convém.”7
O que está sendo abordado nesse trecho de O aturdito são os jogos homofônicos, o duplo sentido, o equívoco significante, as ferramentas a serem usadas pelo poeta e pelo psicanalista em seus manejos distintos. O psicanalista serve-se deles onde convém, quer dizer, o psicanalista em função faz operar o dispositivo analítico, sendo um poata, possibilitando ao analisante escrever-se poema.
Da operação de linguagem sobre o vivente, resulta o falante e o impossível de dizer. Dito de outro modo, entre o falante e o mundo, há o muro da linguagem. Além do muro, o real que é assinalado justamente pelo impossível de alcançá-lo.8 À frente da parede acontecem coisas, os discursos que estabelecem os laços sociais, o engate social9 resultante da perda produzida com a entrada na linguagem, do real da perda, condição primária e fundadora de todos os laços de qualquer sociedade.10
A linguagem introduz o impossível, não há relação sexual. Por não haver, há que se inventar. O amor é um dos nomes dessa invenção. Entre o homem e o mundo, há o muro da linguagem, daí o amor ser (a)muro, l’amur, neologismo proposto por Lacan para dizer dessa invenção que enlaça os falantes. A arte poética, outro nome para essa invenção, que escolhe (a)rima e os versos. E a psicanálise?
Deixo a questão, pois um prelúdio se propõe a provocar questionamentos e desejos, um convite à participação.
Niterói, fevereiro de 2022







