VII COLÓQUIO EPFCL-RDB
PRELÚDIO II
A constituição do Eu e seu impacto no desejo do sujeito
Lacan na aula sobre a báscula do desejo em 1954, nos diz que temos que verificar o quanto a noção freudiana do Eu impacta na condução da experiência analítica e no que chamamos de desejo do sujeito.
Segundo ele, o Eu é um termo verbal cujo uso é aprendido, referenciado ao outro através da fala. O que o leva a dizer: “o eu nasce em referência ao tu” (LACAN, 1954, p. 219). Nesse sentido, compreende-se que o Eu se constitui inicialmente numa experiência de linguagem, em referência ao tu, que é, para a criança, o outro; que manifesta ordens e desejos, dos pais, dos educadores e seus pares. Essa criança tem chances mínimas de distinguir o seu desejo do desejo do outro. Do seu desejo, ele não sabe nada. O que o analisando reconhece de si na sua análise? Há uma ignorância.
“Na análise, a partir do momento em que engajamos o sujeito, implicitamente, numa pesquisa da verdade, começamos a constituir sua ignorância. […] Essa ignorância não é, pois, uma pura e simples ignorância. É o que é expresso concretamente no processo Verneinung, e que, no conjunto estático do sujeito, se chama desconhecimento.” (LACAN, 1954, p. 220).
Para Lacan, este desconhecimento não é ignorância, ao contrário, representa uma certa organização de afirmações e de negações a que o sujeito está ligado. Há, por trás desse desconhecimento, um certo conhecimento do que há a desconhecer.
Na análise, é preciso avançar para destrinchar a verdade que está além da linguagem do sujeito. De acordo com Lacan, isso acontece com o ser humano em função do que ele chama de anarquia das pulsões elementares. Sua relação com o objeto libidinal está submetida a diversas contingências.
De acordo com Lacan, essas contingências diversas isolam a função que desempenha no homem a imagem do seu próprio corpo, a jubilação da criança diante do espelho, o momento tão significativo para a constituição psíquica da criança. O estádio do espelho apresenta, assim, uma analogia com o momento de báscula que se produz em certos momentos do desenvolvimento psíquico.
Lacan nos esclarece, não sem esforço, que a criança só pode ter este domínio no estado de forma[1] vazia do corpo. Através do movimento de báscula, de troca com o outro é que o homem se apreende como corpo. Da mesma forma, nos diz ainda Lacan, tudo o que está então nele no estado de puro desejo – desejo originário, não constituído e confuso, que se exprime no choro ou gemido da criança – é invertido no outro que ele aprenderá a reconhecê-lo.
A criança só aprenderá a reconhecer o seu desejo com sua entrada na linguagem. Antes da linguagem, na origem, o desejo só existe no plano da relação imaginária do estado especular, projetado, alienado no outro. Isso provoca uma certa tensão na criança que a percebe desprovida de saída, a não ser, como ensina Hegel, com a destruição do outro.
Dessa maneira, será impossível para os homens viverem harmoniosamente ou pacificamente. Qual a nossa saída, enquanto seres humanos, para esta impossibilidade? Considerando que o sujeito humano vive no mundo do símbolo, quer dizer, num mundo de outros que falam, neste sentido, o seu desejo é susceptível da mediação do reconhecimento, sem a qual toda a função humana só poderia esgotar-se na aspiração indefinida da destruição do outro como tal.
O que podemos deduzir daí é que, por sermos seres de fala, cada vez que, no fenômeno outro, algo aparece que permite de novo ao sujeito re-projetar, re-completar, nutrir como diz Freud em algum lugar, a imagem do Ideal-Eu, cada vez que se refaz de maneira analógica a assunção jubilatória do estádio do espelho; cada vez que o sujeito é cativado por um dos seus semelhantes, o desejo volta no sujeito. Mas volta verbalizado, sinaliza Lacan (1954)
Essas condições foram descritas por Freud (1923) em O Eu e o Isso, onde escreve que o eu é feito da sucessão das suas identificações com os objetos amados que lhe permitiram tomar a sua forma. O Eu é um objeto feito como cebola, ao ser descascado, se encontram as identificações sucessivas que o constituíram.
Em função desta operação de identificação, Lacan nos diz que a reversão perpétua do desejo à forma e da forma ao desejo, ou, em outras palavras, da consciência e do corpo, do desejo enquanto parcial ao objeto amado, em que o sujeito literalmente se perde, e com o qual se identifica, é o mecanismo fundamental em torno do qual gira tudo que se relaciona ao ego.
Pode-se dizer que o desejo alienado, é perpetuamente reintegrado de novo, reprojetando no exterior o Ideal-Eu. É assim, segundo Lacan, que o desejo se verbaliza, no jogo de báscula entre duas relações invertidas: a relação especular do ego, que o sujeito assume e realiza, e a projeção, sempre pronta a ser renovada no Ideal-Eu. Vejamos o que mais se pode dizer sobre a clínica do desejo no VII Colóquio da EPFCL-RDB.
José Antonio Pereira da Silva – AME – EPFCL-RBD
Referências:
FREUD, S. O EGO e o ID (1923) In:______. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas. Tradução de Jaime Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1976.v.XIX,
p.11–83.
LACAN. J. A báscula do desejo – Cap. XII. In.: Livro 1 Os Escritos Técnicos de Freud. (1953-1954) – 2ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2009 p. 215 – 231.
[1] “Não há forma que não tenha superfície, uma forma é definida pela superfície – pela diferença no idêntico, quer, a superfície.” Superfície refletida numa forma. (LACAN, 1954, p. 224).






