O ato e a (po)ética em psicanálise
Em cada um existe um poeta escondido e que o último poeta deverá morrer junto com o último homem (Freud, 1908/2015, pg. 55).
O poema, sabe, nasce do espanto, isto é, de um instante em que o enigma q sempre não explicado e oculto da existência se põe à mostra (Ferreira Gullar em “Notícia de um assalto inusitado”).
Desde seu ato de fundação da psicanálise, Freud não se privou de analisar o processo de criação e o recurso da arte como forma de expressão. Em “O poeta e o fantasiar”, Freud (1908/2015)1 se pergunta: “Não deveríamos procurar os primeiros indícios da atividade poética já nas crianças?”. Parafraseando Freud, deveríamos buscar indícios do ato criativo do poeta no ato do psicanalista?
Neste trabalho freudiano dedicado a buscar a gênese do processo criativo, encontramos na linguagem a aproximação entre o fazer criativo do poeta e o brincar, pois o poeta, ao criar um mundo de fantasia, necessita do empréstimo de objetos concretos passíveis de representação a fim de reduzir a distância entre o que lhe é singular e a essência humana. Bom, como sabemos, o brincar infantil é um ato criativo dirigido pelo desejo da criança de saber da realidade na qual está inserida e do mundo dos adultos.
E o que podemos dizer do ato do psicanalista? Ou do ato de dizer do psicanalista que produz destituição subjetiva no curso de uma análise? No Seminário O ato psicanalítico, Lacan (1967-1968) diz que não é de um agir que o ato se trata, pois não se encontra na ordem do pensar, por isso não é uma conjectura, nem uma prática. O ato se inscreveria mais do lado da poesia. Ele utiliza o termo poesia em grego, toínon, e se refere a Aristóteles, quando este afirma que a poesia vem de fora do sujeito. “Algo que toma o sujeito”, e é neste sentido que Lacan se define como um poata, não um poeta: “o analista é o poata, é um poeta do ato, porque no ato é que ele se deixa tomar pelo inconsciente e revela algo que ele próprio não sabia”.
Em seu artigo “Uma interpretação que leva em conta o real “, Colette Soler (2012) afirma que o analista é um poeta na medida em que não pode calcular sua interpretação, posto que a verdade é tão incalculável quanto o real. Nesse sentido, para Soler (2012), o analista vai a esmo, lidando com um poema que não é o seu, e que ele não conhece, mas que lhe pedem
eventualmente para corrigir. Para levar em conta esse poema como real, sinthoma, o analista se utiliza de um outro real em seu dizer, a saber, o da alíngua e de seus equívocos, os quais podem jogar contra o gozar do poema, já que é por eles que o poema se faz. Dessa forma, o analista remaneja o poema, amarrando-o de outra forma – por nó –, e isso consiste em mudar a balança entre verdade e real, entre o gozo do sentido e o gozo daquilo que o tampona e que faz ali como que um contrapeso.
O funcionamento do psiquismo é indissociável da reflexão ética, da problematização dos modos de viver e das formas de regulação do laço com o outro. Ética, lei e desejo são conceitos importantes no seminário 7, “A ética da psicanálise”. É na clínica, no discurso dos analisantes, que tais reverberações se fazem presentes. É precisamente este o propósito desta investigação ao mencionar em que medida a reflexão clínica tange às formas do sofrimento psíquico.
Por fim, destaquemos Lacan ao dizer da “ética que se inaugura pelo ato analítico a lógica manda, isso é certo, por nela encontrarmos seus paradoxos” (Lacan, 1969/2003, p.376) e dessa forma convidamos com muito entusiasmo para o lX Colóquio da EPFCL- RDB.
Comissão Científica IX Colóquio EPFCL-RDB: Andréa Oscar, Esther Mikovski, Felipe Celestino, José Antônio Pereira e Karina Veras (Coordenação)
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¹Nessa apresentação optamos por essa versão do texto freudiano também conhecido em outras edições como “Escritores criativos e devaneios”
Referências:
FREUD, S. O poeta e o fantasiar. In E. Chaves (Trad.), Obras incompletas de Sigmund Freud: arte, literatura e os artistas. (pp. 53-64). Belo Horizonte: Autêntica, 2015. (Publicado originalmente em 1908)
GULLAR, Ferreira. Notícia de um assalto inusitado. Jornal Folha de São Paulo: São Paulo, 2008
LACAN, Jacques (1988). Seminário, livro Vll: A Ética da Psicanálise (1959-1960). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.
, Jacques. Escritos. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p. 496- 533.
————, J. O Seminário, Livro 15: o ato psicanalítico [1967-1968]. Inédito.
————, J. (1968-1969) Resumo do Ato Analítico 1967-1968. In: Outros escritos, p 373
SOLER, Colette. Uma interpretação que leve em conta o real. Stylus, Rio de Janeiro, n. 24, p. 25-40, jun. 2012.


















