Prelúdio VI
Nossa prática do dizer
Dominique Fingermann1
Voilà qui ajoute une dit-mension à la topologie de notre pratique du dire.2
J.Lacan
A psicanálise – “nossa prática” – tomou seu lugar no mundo ao inaugurar uma práxis, a constituindo, e a instituindo de vez, já que, mal ou bem, ela atravessou os séculos. Quando a qualificamos e distinguimos como “práxis”, dizemos que ela transformou o mundo ao propor um novo discurso. Esta práxis, este discurso, e o laço que eles implicam procedem de uma ética fora da razão universalizante, moralizante, fora da lógica do bem e do senso comum: subversão ética inaugurada pelo ato psicanalítico.
No entanto, é a lógica que comanda a ética própria do discurso analítico, como Lacan a precisa no Resumo do Seminário 1967-1968: “Na ética que se inaugura pelo ato psicanalítico…a lógica manda, isso é certo, por nela encontrarmos seus paradoxos.3” O paradoxo do logos, da linguagem, é “sua profunda insuficiência lógica”4, portanto, considerar, validar e responder a esta incompletude, inconsistência, indecidibilidade da lógica do significante posta em jogo pelo “procedimento freudiano”, depende de um posicionamento ético que leva em conta, de saída, este “mais além”.
O princípio lógico-ético de nossa prática, consiste em sua regra, fundamental e seu correlato: a interpretação, isto é, a hipótese do inconsciente sustentada pela função “de analista”. Este novo laço social produz um efeito inédito nos ditos que essa prática solicita: “Diga, qualquer coisa”. Pois, essa “prática de tagarelice”5, que poderíamos suspeitar de futilidade, deixa fluir, fugir, na palavra essa corriqueira6, o que a causa: uma coisa da qual não se tem ideia escapa das cadeias das palavras e dos pensamentos.
A psicanálise permite apreender aí « un creux toujours futur »7 um oco sempre futuro que dá sentido ao desejo – indestrutível, dizia Freud; metonímico, dizia Lacan – a seus brilhos, malogros, e outros avatares, e a sua dialética que oscila entre alienação e separação.
A prática da psicanálise sustenta esse sentido do desejo até a produção de seu impasse na própria experiência transferencial, suportada pelo ato do psicanalista. A prática do sentido oriunda desta experiência permite a passagem do sentido do desejo ao sentido real: “Pois essa prática não somente tem um sentido, mas faz surgir um tipo de sentido que ilumina os outros sentidos a ponto de questioná-los, quero dizer, de suspendê-los.”.8
“Não ceder em seu desejo” balizou por um tempo a ética específica da psicanálise até que Lacan demonstre que o que constitui a intensão da psicanálise, ao ponto de garantir sua extensão, é o ato do psicanalista, e a ética que procede da posição do inconsciente como real. O ato possibilita uma ruptura, um corte na função do “sujeito suposto saber”, tempo este necessário para compreender e concluir a verdade como mentirosa em relação ao real. O ato do psicanalista, a ética que o condiciona, teima em destacar da fala de associação livre a “função do dizer“9, que é função de ex-sistência, à qual os ditos das demandas amarradas à lógica da fantasia fazem “argumento” tão verdadeiro!
Demonstrar a função ex-sistencial do dizer depende da incidência do ato do psicanalista no blablabá. É o que uma análise propõe: que o dizer próprio, singular, fundante, inaudito, ex-sistente, o Dizer do Um sozinho, não seja mais esquecido atrás do blablabá, atrás do que se diz (o significante) no que se ouve (o sentido). Uma análise, o ato que o analista sustenta, pode tornar inesquecível o dizer do falasser em questão, a ponto que o seu eco repercute nos muros da linguagem, a ponto de passar o muro da linguagem.
Topar com a solidão desta ex-sistência depende de uma heresia, a da escolha de um enodamento RSI novo a partir do engajamento do dizer próprio a cada um: é uma opção, ética. É assim que a ética do “bem-dizer”10 pode conduzir um sujeito a tomar a medida daquilo ao qual está sujeitado e consentir à desmedida desse dizer fora de cogitações, que poderia enodar de um jeito outro as diz-menções RSI com as quais se embaralhou no decorrer da sua vida nó-rotica.
Este jeito novo não se pode procurar nas elucubrações da linguagem saturadas pela significação fantasmática; ele se acha na prática do blablabá, nos ciscos, respingos e detritos que lalíngua transporta e com os quais cada um pode, eventualmente, se fazer poema. Autorizar-se, validar a ex-sistência do dizer fazendo uso dos ecos da lalíngua: opção poética. Lembremos como, no “Momento de concluir”, Lacan precisa o sentido desta prática do blablabá que pode chegar a fazer-se poema:
“É uma prática. É uma prática que durará o tempo que durar, é uma prática de tagarelice. Nenhuma tagarelice está isenta de riscos. Já a palavra “tagarelice (bavardage)” implica algo. O que isso implica é suficientemente expresso pela palavra “bavardage”. O que significa que não são apenas as frases, ou seja, o que chamamos de proposições, que implicam consequências; as palavras também. ” bavardage” coloca a fala no nível de babar (baver) ou de espirrar. Ela a reduz ao tipo de respingos que resulta disso. É isso”11.
A extensão da psicanálise conta com a intensão própria de “nossa prática do dizer”: o dizer está posto na jogada pelo analista, sua interpretação, até que o analisante, engajado na “prática do sentido e na prática do blablabá, apanhe o seu dizer próprio, a ponto de fazer aí sua aposta, de um uso outro, de outro enodamento, (po)ético.
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1 Psicanalista, AME da EPFCL.
2 Lacan J L’Étourdit, Autres Écrits, Paris, Seuil, 2001 p.486 / Outros Escritos Zahar p. 488 « É isso que acrescenta uma diz-mensão à topologia de nossa prática do dizer ».
3 Lacan J. O Ato Psicanalítico Resumo do Seminário 1967-1968 Outros Escritos, Zahar, p 376 / Autres Écrits p.380.
4 Lacan J. Séminaire XVI D’un Autre à l’autre, Leçon XVII 23 avril 1969 (Publication hors commerce ALI p.226).
5 Lacan J. Séminaire XXV Le moment de conclure Leçon I 15 novembre 1977 (Publication hors commerce ALI p. 9).
6 Prado A. Antes do Nome, Bagagem v Edição Editora Guanabara p.30.
7 Valery P. Le Cimetière Marin : O pour moi seul, à moi seul, en moi-même,/Auprès d’un coeur, aux sources du poème,/ Entre le vide et l’événement pur,/ J’attends l’écho de ma grandeur interne,/ Amère, sombre, et sonore citerne, / Sonnant dans l’âme un creux toujours futur! um oco sempre futuro.
8 Lacan J. Séminaire XXI Les non dupes errent, Leçon XIII 14 mai 1974 (Publication hors commerce ALI p. 197). Tradução livre de “Car cette pratique non seulement a un sens, mais fait surgir un type de sens qui éclaire les autres sens au point de les remettre en cause, je veux dire de les suspendre3
9 Lacan J Séminaire XXII RSI, Leçon 15 avril 1975 (Publication hors commerce ALI p. 162).
10 Lacan J. Televisão, Outros Escritos, Zahar, p.524.
11 Lacan J Séminaire XXV Le moment de conclure Leçon I 15 novembre 1977 (Publication hors commerce ALI p. 9). Tradução livre de “C’est une pratique. C’est une pratique qui durera ce qu’elle durera, c’est une pratique de bavardage. Aucun bavardage n’est sans risques. Déjà le mot « bavardage » implique quelque chose. Ce que ça implique est suffisamment dit par le mot « bavardage ». Ce qui veut dire qu’il n’y a pas que les phrases, c’est-à-dire ce qu’on appelle les propositions, qui impliquent des conséquences, les mots aussi. « Bavardage » met la parole au rang de baver ou de postillonner. Elle la réduit à la sorte d’éclaboussement qui en résulte. Voilà”







