Prelúdio II
Me indica uma analista que fala?
Rúbia d’Alessandro¹
Uma vizinha me pediu: “Me indica uma analista que fala para a minha mãe? Ela tem que falar para a minha mãe saber o que é certo e errado.” Que peleja! Certa vez, falei junto com uma analisante e ela esqueceu uma ideia que lhe ocorreu. Pensei: “Cala a boca, Rúbia!” Calei, esperei e a analisante se lembrou da ideia, graças às forças que operam no aparelho psíquico.
Na segunda lição de “A Ética da Psicanálise” (1959-60), Lacan retoma “A interpretação dos Sonhos”, onde Freud mostra que o funcionamento do aparelho psíquico e o dos sonhos é o mesmo. Aqui, Lacan está fazendo uma articulação da ética da psicanálise com o aparelho psíquico, com o inconsciente. Lacan faz esse percurso para chegar no desejo como a ética da psicanálise, sendo que o desejo é inconsciente. Sigamos esse percurso.
Freud (1900, p. 637) afirma: “O inconsciente é a esfera mais ampla, que inclui em si a esfera menor do consciente.” Ele explica que tudo o que é consciente já foi inconsciente e o inverso não é verdadeiro. Freud (1900, p. 637) avança: “(…) em sua natureza mais íntima, ele [o inconsciente] nos é tão desconhecido quanto a realidade do mundo externo, e é tão incompletamente apresentado pelos dados da consciência quanto o é o mundo externo (…).” A falação (que se distingue da “historicização” tão fundamental) é do âmbito do consciente e inclui o “Eu desejo isso, eu desejo aquilo”, que deve ser considerada, mas não é a questão. Freud (1912) ensina que a associação livre permite que o conteúdo inconsciente (portanto, o desejo que está lá) pule da boca daquele que fala, sempre pelo “engano”, pelo lapso, pelo ato falho. Assim, é preciso aguardar. A associação livre está para o analisante e a atenção flutuante está para o analista. Freud diz: “Ele [o analista] deve simplesmente escutar e não se preocupar se está lembrando de alguma coisa” (p. 126). Ele explica que a fala do analisante se apresenta de forma desconexa e que a atenção flutuante permite que aquilo que já foi escutado retorne para o analista. Daí, ocorre uma “intervenção”, que será sempre inconsciente – o que não se confunde com a emergência do inconsciente do analista. Freud (1912) chama o inconsciente do analista de receptor e o do analisante de transmissor. Aqui, pode-se pensar no conceito de ato analítico de Lacan, sempre inconsciente, não intencional, que salta da boca do analista. Para tal, haja análise (do analista). Escutar a falação e não o que escapa “sem querer”, faz do analista um amigo, um pai, ou seja lá o que for, menos um analista. A série que se apresenta na falação é a dos fatos, que também deve ser escutada, mas que não é a série da cadeia significante. A questão é escutar além, é escutar o desejo, que sempre aparece no intervalo da demanda na cadeia significante. Querer compreender a realidade dos fatos é uma cilada, é entrar no campo moral, do que é certo ou errado.
Antes da psicanálise, todos acreditavam que a percepção é consciente (LACAN, 1959). Freud (1900) traz não só os primeiros traços de percepção como inconscientes, mas também o pensamento. Lacan (1959) toma duas expressões de “A Interpretação dos Sonhos”: “identidade de percepção” e “identidade de pensamento”, sendo que a primeira faz parte do processo primário e a segunda, do processo secundário. A clínica ajuda a escutar isso. Os primeiros traços de percepção, portanto, primários, são impossíveis de lembrar. Os pacientes não se lembraram da infância mais remota. O máximo que acontece é eles trazerem o que escutaram sobre eles mesmos nesse primeiro tempo da vida. Quanto ao pensamento ser inconsciente, pode-se tomá-los como ideias que aparecem assim, de repente. Eis a abertura do inconsciente, que se não for pego, fecha-se rapidamente. É o caso do ato falho – se o analista não pega, já era. E não adianta o analisante dizer que “falou errado”. Insisto: a questão não é o certo ou o errado.
Daí, Lacan faz uma distinção da ética com a moral. Ele retoma alguns filósofos no Seminário 7, de 1959 e 1960, para dizer que a ética da psicanálise não se confunde com a adaptação que mira o “Bem Supremo” ou o ideal de conduta. Um ano antes (1958), em “A direção do tratamento”, Lacan já tinha tocado nisso, advertindo que uma análise não se confunde com uma “reeducação emocional” ou com um adestramento ao “Eu fraco”. Resumindo, o que interessa numa análise é uma outra lógica, completamente distinta da comunicação. O que interessa é o que o inconsciente fala, não a fala consciente.
Como o tema do Colóquio desse ano é “O ato e a (pó)ética em psicanálise”, termino esse prelúdio com uma poesia, com a música “Fala”, de Secos e Molhados. O refrão consiste no imperativo “Fala”, seguido de vários “Lá, lá, lás” – que escuto como distinto do “Blá, blá, blá”. Como não pensar no refrão “Fala… lá, lá, lá…” como um “fala lá… lá no inconsciente?”:
Fala (Secos e Molhados, 1973)
“Eu não sei dizer
Nada por dizer
Então eu escuto
Se você disser
Tudo o que quiser
Então eu escuto
(Refrão)
Fala
Lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá
Fala
Se eu não entender
Não vou responder
Então eu escuto
Eu só vou falar
Na hora de falar
Então eu escuto
(Refrão)”
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¹Psicanalista, Membro de Escola da EPFCL-RDB.
Referências bibliográficas
FREUD, S. (1900). A Interpretação dos Sonhos (II). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. RJ: Imago Editora, 2006, vol. V.
________. (1912). Recomendações aos Médicos que Exercem a Psicanálise. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. RJ: Imago Editora, 2006, vol. XII.
LACAN, J. (1959-60). O seminário, livro 7: a ética da psicanálise. RJ: Jorge Zahar, 2008.
_______. (1958). A direção do tratamento e os princípios de seu poder. In: Escritos. RJ: Jorge Zahar, 1998.
SECOS E MOLHADOS. Fala. RJ: Continental, 1973.







