É desejável fazer Escola, não-toda
Maria Lúcia Araújo*
Neste trabalho, proponho-me a pensar – por homologia com as fórmulas da sexuação – como podemos caminhar com o fazer Escola não-toda. Assim, intitulei o meu texto como “É desejável fazer Escola, não-toda”.
Considero que podemos operar com o Não-todo proposto por Lacan (LACAN, 1985, p. 98-99) por ser uma lógica de posição de gozo que pode nos ajudar a pensar a lógica de nossa Escola – Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano –, entre amor, desejo e gozo. Nas palavras de Colette Soler,
A Escola é a aposta de um grupo analítico modificado pelo passe, de um grupo que surgiria, não-todo, da norma fálica (…). (SOLER, 2010, p. 25)
A autora afirma ainda que:
A lógica do não-todo própria do analista, tanto quanto a mulher não existe, inquieta e preocupa o grupo analítico.” (id. Ibidem)
Porque,
“(…) a transferência imaginária pode dar lugar aos grupos consistentes que podem desenvolver novas epistemologias.” (SOLER,2010, p. 84).
Soler se refere a um processo de fragmentação interna que trabalha em todas as comunidades analíticas, sem exceção, desde o princípio da psicanálise. Concordo com a autora e, por isso, este texto que ora trago para dialogar com vocês procura destacar a questão do fazer Escola, o Passe e o Cartel, como elementos fundamentais que sustentam a nossa Escola orientada pela lógica da não-toda, isto é, uma Escola (barrada) e incompleta.
É uma Escola barrada e incompleta porque não temos a pretensão de nos entendermos todos. O mal-estar é estrutural por causa das diferenças. Mas é necessário que a nossa Escola esteja à altura do Discurso Analítico. Somos dispersos díspares, sós, mas não sem os outros. A psicanálise promove separação e a diferença singular em torno da transferência de trabalho. E penso que já está claro que separar não é segregar. A comunidade precisa levar em conta que não é possível inscrever a (relação) rapport sexual. E, o que faz diferença é, justamente, a negação; por isso, Escola não-toda.
Desejo de fazer Escola, ainda…
Faço questão de marcar que este “ainda” refere-se a um desejo que tento sustentar há muitos anos.
Talvez este desejo seja uma utopia de um laço social “livre da necessidade de grupo”, inscrito na lógica do não-todo. No entanto, considero que para refletir sobre o desejo de Escola, como foi proposto pela Comissão Epistêmica e de Acolhimento (CEAR), é necessário fazer a conjunção do desejo de analista (de l’analyste) – marcando aqui uma posição –, com o desejo de Fazer Escola, pois é ele – o desejo de fazer Escola – que é equivalente ao saber.
Mas de que saber estamos falando se o analista deve rejeitar o saber e ao mesmo tempo lidar com ele?
Saber o que é o analista, como se faz o analista (barrado). Saber como o analista circunscreveu “(…) a causa de seu horror, o dele próprio, destacado do de todos – horror de saber” (LACAN, “Nota Italiana”, 2003, p. 313). Saber sobre a castração, ou seja, saber que não há relação sexual, no sentido de proporção. (id. ibidem).
No entanto, não é suficiente sabermos que a “autentificação” se dá pelo passe, pois antes de chegar a este há um longo caminho a ser percorrido. A formação de um analista exige tempo, não apenas cronológico, mas lógico.
Lacan propõe o passe para encontrar a marca singular do desejo do analista, isto é, se há de fato desejo de analista.
Na “Nota Italiana”, Lacan chama a atenção para colocarmos à prova o Discurso Analítico e diz que “(…) é do não-todo que depende o analista” (LACAN, 2003, p. 312,). Nas palavras de Lacan:
Não-todo ser falante pode autorizar-se a produzir o analista. Prova disso é que a análise é necessária para tanto, mas não é suficiente. (id. ibidem)
Então, Lacan vai buscar no passe a lógica desse enigma, dessa experiência, onde podemos colher efeitos de transmissão. É no passe que o analista vai poder circunscrever a causa de seu horror ao saber – horror de saber ser um rebotalho (um resto) –, sobre isso Lacan afirma: “Se ele não é levado ao entusiasmo, é bem possível que tenha havido análise, mas analista, nenhuma chance” (id. ibidem).
No entanto, o dispositivo do passe requer a sustentação em uma Escola. De acordo com Cora Aguerre:
A experiência do passe supõe o compromisso com a Escola, lugar privilegiado de formação (…). Enfrentar o passe supõe justamente colocar à prova, tentar identificar alguma coisa desse real em jogo na formação do analista. Além disso, enfrentar o real em jogo nas instituições analíticas. (AGUERRE, 2010, p. 33)
Paradoxalmente, sabemos que um analista não se forma, um analista se produz em uma análise graças a uma transformação do sujeito que o coloca em condições de fazer atos.
O próprio Lacan disse certa vez: “(…) jamais falei de formação do analista e sim formações do inconsciente” (LACAN, 1973, Intervenção no Congresso da Escola Freudiana de Paris). Formações estas que podemos encontrar somente em uma análise. Mas isto não significa que o sujeito que deseja praticar a psicanálise deva prescindir de supervisões, leituras de textos e, sobretudo, cartéis.
Agora, mesmo correndo o risco de tocar em uma questão delicada, que é a comunidade analítica, me interessa também falar da transferência, ou seja, daquilo que nasceu como transferência de amor a partir da clínica, à transferência de trabalho operando sobre o grupo analítico. Nunca é demais repetir o alerta de Colette Soler:
“O processo (…) fragmentação interna trabalha em todas as comunidades analíticas sem exceção desde o princípio da psicanálise (…). Estes fatos são demasiado generalizados, demasiado ancorados na estrutura para que se possa sonhar em erradicá-los. Porém, com a Escola e o seu Cartel como estrutura de base, Lacan procurou limitar esta lógica e opor-se a seus efeitos. O cartel é um antídoto ao grupo.” (SOLER, 2010, p. 84)
Sobre os Cartéis
Sobre os cartéis, sabemos que Lacan, em 1975, por ocasião do Seminário 22 (RSI), precisamente na aula de 15 de abril, volta a destacar a importância de um dispositivo de Escola ao qual não era dada a devida importância: o Cartel. Ele, então, lança a pergunta: Um cartel por quê? Sobretudo, Lacan enfatiza, nessa aula, a questão da identificação de cada participante com o grupo, assim como a formalização do cartel usando como recurso o nó borromeano.
Categoricamente, Lacan afirma que “(…) o cartel parte de três mais uma pessoa, coisa que, em princípio, faz quatro, e que dei como máximo cinco, graças ao que faz seis” (LACAN, 1974-1975, p. 64-65). Em seguida, sublinha que os seres humanos, quando não se identificam a um grupo, “estão mal, devem ser trancafiados” (id. ibidem).
Colette Soler, ao comentar essas palavras de Lacan, diz que “a identificação que ele indica (…), é a identificação ao ponto onde ‘a’ está escrito no nó borromeano”. “Ora, este é precisamente o ponto onde falta o saber (…). Ali onde se situa o desejo.” (SOLER, 2016, p. 50)
Assim, operar a partir dessa lógica permite precisar que o ponto nodal de qualquer cartel é promover o tratamento da identificação a partir do singular de cada um. Nesse pequeno grupo, a divisão subjetiva deve ter lugar, em contraponto à obturação narcísica desencadeada pela identificação imaginária de grupos de estudo.
Além disso, um dos princípios do cartel é a implicação do grupo com o fazer Escola. Torna-se importante acentuar essa função do “mais-um” como uma das grandes diferenças entre o grupo de estudo e o cartel, pois, ao operar a partir do discurso analítico, o “mais-um” privilegia o saber inconsciente, fazendo com que o cartel funcione como um dispositivo analítico.
Quem busca a consistência do Outro encontrará a inconsistência. Quem busca saber do conhecimento logo perceberá que o que está em jogo no cartel é algo que se refere ao processo analítico e à posição subjetiva de cada um dos cartelizantes. Trata-se, então, nesse dispositivo de Escola, de saber lidar com o real que nos surpreende e trabalhar para preservar os princípios da descoberta freudiana. (ARAÚJO, 2009, p. 7).
Vale destacar que os cartéis são da Escola e, portanto, declarados à Escola. Por isso, a Escola é mais crucial do que nunca. Vou tentar desdobrar fazendo uma questão singela: O que diferencia a Escola da proliferação dos Institutos de psicanálise, Associações ou até das Universidades? Este é um grande problema na atualidade da psicanálise, e o que pode ir na contramão dessa maneira de transmissão da psicanálise é o passe! O dispositivo do passe e a Escola são indissociáveis.
Aqui vale uma problematização, inspirada na pergunta de Lacan sobre os cartéis. Uma Escola, por quê?
Lacan, no “Pronunciamento na Escola” em 1969 (2003, p. 299), diz que o que foi posto em questão pela “Proposição de 9 de outubro de 1967” foi se a psicanálise foi feita para a Escola, ou a Escola para a psicanálise (2003, p. 248).
Afinal, o que nos orienta? Respondo rapidamente: É evidente que é a relação de cada um de nós com a causa psicanalítica.
No “Discurso à Escola Freudiana de Paris”, Lacan afirma que “É justamente por isso que a sua proposição é nos interessarmos pelo passe, onde o ato poderia ser apreendido no momento que se produz” (LACAN, 2033, p. 271).
Por isso, é que é de outro lugar, unicamente do ato psicanalítico, que é preciso situar o que articulo sobre o ‘desejo de analista’, que nada tem a ver com o desejo de ser psicanalista. (LACAN, id., p. 277)
Assim, participar de uma Escola para a psicanálise é lidar o tempo todo com a incompletude. Cujo matema, Lacan formalizou com (S/A barrado).
De acordo com Garcia,
Está claro que a questão do estatuto do Discurso analítico depende da Escola dos analistas, porém sabemos que ele, o discurso analítico, estabelece um laço sem grupo, que ele funciona sem contar com o grupo, sem passar pelo grupo. A este tipo de formulação chamaria consistência que leva em conta a incompletude. (GARCIA, 1995, p. 109).
A Escola incompleta, mas consistente. Uma Escola onde podemos demonstrar que a relação sexual não existe. Será isto uma Escola não-toda?
Considero que a psicanálise e tudo que a ela se refere sustenta-se na lógica do não-todo e, a partir desse não-todo, o analista sabe ser um rebotalho.
Rebotalho, o que é mesmo ser um rebotalho? Um resto, um rejeito e, mesmo assim, entusiasmado. Lacan diz, na “Nota Italiana”: “(…) isto é o que meu passe (…) muitas vezes ilustra” (LACAN, 2003, p. 313).
A partir dessas considerações e de uma inquietude, pergunto:
Como dar tratamento às rivalidades, competitividades e narcisismos da pequena diferença? Como lidar com aquilo que obstaculiza o trabalho em uma Escola?
Entendo que é a psicanálise em “intensão” (divã) e a psicanálise em extensão através das transferências de trabalho pela via da Escola. Essa é a aposta.
Trago novamente o texto de Cora Aguerre, agora com estas questões que foram colocadas. Vejamos o que ela diz:
A Escola não é confortável, porém tem a função de colocar-nos a trabalho, de funcionar como estimulante, de forçar-nos a dar razões, a expor, a colocar à prova não somente o passe, mas também continuamente no trabalho com os colegas. A Escola nos divide, sempre nos move, e se não há um incômodo excessivo o que não permite o trabalho e funciona como resistência, uma Escola um pouco incômoda, uma Escola onde ninguém pode se acomodar, se instalar, não é mal para o psicanalista. (AGUERRE, 2010, p. 35)
De acordo com Ramon Mirapeix, “colocar o não saber no centro do cartel e do passe, parecem ser pensados para manter o furo” (MIRAPEIX, 2023). Furo que o Institucional poderia tamponá-lo.
Pois bem! Faz tempo que sabemos que o amor de transferência se dirige ao saber. Se a análise tem um fim, a transferência não precisa ter um fim, pois temos a transferência de trabalho, colocada no fundamento da Escola.
Uma Escola não-toda e incompleta.
Sabemos que é a transferência de trabalho ou os laços de transferência que sustentam uma instituição psicanalítica. Ou seja, a circulação de questões entre seus membros, esforço para proteger a instituição de efeitos de grupo, cuidado de cada um com a presença da psicanálise no mundo e, além disso, ajuda a preservar os princípios éticos da psicanálise.
Lacan indica que vai de um sujeito a outro, e não de um a todos, não é fenômeno de massa, concerne ao ensino da psicanálise. Ensino que o analista faz em posição de analisante. Se dá a partir da posição do sujeito em relação à ex-sistência do saber inconsciente. No ato de fundação da Escola Freudiana de Paris, Lacan propõe um sintagma: “O ensino da psicanálise só pode se transmitir de um sujeito a outro e isso pela via de uma transferência de trabalho”.
Uma transmissão, pois, que se fundamenta na causalidade psíquica.
*Maria Lúcia Araújo: Psicanalista/Psicóloga – Membro da EPFCLRDB-Brasil
E-mail: araujomalu@uol.com.br.
Referências Bibliográficas
AGUERRE, C. “Fim de análise, passe e Escola Boletim Internacional da EPFCL”. In Wunsch n.10. Roma, julho de 2010.
ARAUJO, ML. “Um Cartel, por quê?”. In Boletim do Fórum do Campo Lacaniano de São Paulo, 2009.
GARCIA, C. Psicanálise, Política e Lógica. São Paulo: Editora Escuta, 1995.
LACAN, J. “Nota Italiana”, “Discurso à Escola Freudiana de Paris”, “Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola”, “O ato psicanalítico”. In Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.
_________. O seminário, livro 20: Mais, ainda (1972-1973). Trad. MD Magno. 2.ed. rev. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.
_________. O Seminário RSI 1974-1975, Livro XXII. Manuscrito inédito (versão não comercial).
MIRAPEIX, R. VII Colóquio da EPFCLRDB-Brasil, 2023. Disponível em https://epfclrdb.com.br/. Acesso em julho de 2024.
SOLER, C. “Florilegio del Mensual”. In Associación Foro del Campo Lacaniano de Medellin, Colômbia. Impressão: L. Vieco e Hijas Ltda, setembro de 2010.
SOLER, C. “O que faz laço? São Paulo: Editora Escuta Ltda., 2016.


