O homem tem um corpo
De 8 de maio de 1973 a 20 de junho de 1975 Lacan se ocupa bastante do corpo. Seu Seminário Encore é homófono de En corps. Em sua conferência sobre Joyce, o sintoma é definido como um acontecimento do corpo ligado a que l’on l’a (a gente o tem), l’on l’a de l’air (a gente tem ares de), l’on l’aire, (a gente areja a partir do), de l’on l’a (a gente o tem)[1].
Começando com o tema do barroco[2], ele disse, o barroco é a regulação da alma pela escopia corporal[3] […] tudo no barroco é exibição do corpo evocando o gozo[4]. É por isso que a ilustração da capa do Seminário 20 é a escultura de Gian Lorenzo Bernini – O êxtase de Santa Teresa D’Ávila[5] – exposta na Capela Cornaro, na Igreja de Santa Maria Della Vitória, em Roma. Lacan cita: “Para a Hadewijch[6] em questão, é como para Santa Tereza – basta que vocês vão olhar em Roma a estátua de Bernini para compreenderem logo que ela está gozando, não há dúvida. E do que é que ela goza? É claro que o testemunho essencial dos místicos é justamente o de dizer que
eles o experimentam, mas não sabem nada dele”[7] E Santa Tereza ratifica: “Vi em suas mãos um dardo de ouro grande e no final da ponta me parecia haver um pouco de fogo. Ele parecia enfiá-lo algumas vezes em meu coração e chegava às entranhas. Ao tirá-lo me parecia que as levava consigo e me deixava toda abrasada em grande amor de Deus. Era tão grande a dor que me fazia aqueles gemidos, e tão excessiva suavidade que põe em mim essa enorme dor que não há como desejar que se tire nem se contenta a alma com menos do que Deus”.[8]
A alma, em Aristóteles, Lacan disse, são pensamentos sobre o corpo. “O corpo, ele deveria deslumbrá-los mais. De fato, é mesmo o que deslumbra a ciência clássica – como é que ele pode funcionar assim? O corpo, o de vocês, não importa que outro aliás, corpo que se movimenta para lá e para cá, é preciso que ele se baste. Alguma coisa me fez pensar nisto, um sindromezinho que vi sair da minha ignorância, e que me foi lembrado – se por acaso as lágrimas parassem de correr, o olho nos funcionaria mais muito bem. É o que chamo de milagres do corpo. Isto logo se sente. Suponham que ela não chore mais, que ela não sore mais, a glândula lacrimal – vocês terão aporrinhações. E por outro lado, é um fato que ela choraminga, e por que diabo? – uma vez que, corporalmente, imaginariamente ou simbolicamente, alguém pisa o pé de vocês. Chamam a isto afetá-los. Que relação haverá entre esse choramingo e o fato de
aparar o imprevisto, quer dizer, barrar-se?”[1].
A lágrima é um milagre do corpo, se ela deixar de correr um corpo pode ser afetado. É o caso da síndrome de Sjögren, ou síndrome seca, uma doença autoimune. Aí se trata de sujeito barrado. Esta é a hipótese lacaniana: o corpo que é afetado pelo inconsciente é o mesmo que chamo de sujeito de um significante. Aqui vemos uma homologia entre corpo e sujeito.
A alma é a identidade suposta ao corpo, é o que se pensa a respeito do corpo. O corpo tem secreções, concreções, hormônios e até DNA. O pensamento repousa na linguagem, na estrutura que comporta uma inércia considerável.
Aqui, a linguagem, ou seu material, o significante é tratada como um objeto físico, como o átomo, ou como um objeto químico, como o aminoácido. O corpo funda o ser, se se pergunta pela essência do ser, por sua substância.
No De Anima, Aristóteles afirma que o homem pensa com a alma. Passamos dois mil anos acreditando nisso, que o homem tem uma alma, uma psiquê. Inventamos uma disciplina para se ocupar da alma, da psiquê, a psicologia. Até descobrirmos que esse foi o erro de Descartes, a divisão mente e corpo, substância pensante e substância extensa. Aí será preciso falar de uma
energética da linguagem, da relação de um gozo como substância do pensamento. Aonde isso fala, isso goza e não quer saber de mais nada.
Referências
1 LACAN, J. Joyce, o sintoma. Outros
Escritos. Rio de Janeiro, Zahar, 2003, p. 565.
2 LACAN, J. O Seminário livro 20,
Mais, ainda. Rio de Janeiro, Zahar, 1982, p.142-159, 8/5/1973.
3Ibid, p. 158a
4 Ibid, p. 154
5 Ibid, p. 103
6 Hadewijch de Antuérpia (também
chamada de Hadewijch de Brabante) foi uma poetisa e mística brabante do século XIII. Hoje é
geralmente aceito que Hadewijch foi a “grande senhora” – isto é, a líder religiosa – de um grupo de
beguinas. https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Hadewijch_de_Antu%C3%A9rpia
7 LACAN, J. Seminário 20,
op.cit., p. 103.
8 Santa Teresa. Livro da Vida. https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Teresa_de_%C3%81vila
9 LACAN, J. Seminário 20, op.cit., p.149.
Jairo Gerbase é psicanalista, AME da EPFCL e do Campo Psicanalítico (Salvador)







