Prelúdio I
Laços sociais e sintomas da contemporaneidade
Eliane Z. Schermann¹
A teoria dos discursos de Jacques Lacan oferece uma importante ferramenta para abordar os modos pelos quais os sujeitos se inserem nos laços sociais e produzem respostas ao mal-estar inerente à condição humana. Ao afirmar que não existe subjetividade ou organização social fora dos discursos, Lacan desloca a questão do vínculo social para o campo da linguagem, mostrando que toda relação humana é mediada por estruturas simbólicas que se organizam pelo saber, pelo poder, pelo desejo e pelo gozo.
No Seminário XVII, Lacan formaliza os quatro discursos fundamentais — do Mestre, da Universidade, da Histérica e do Analista — como modalidades de laço social. Resumidamente, vamos abordar os 4 discursos. O discurso do Mestre sustenta as relações de autoridade e mestria; o da Universidade organiza o saber — seja o saber subjetivo ou institucional e burocrático —; o discurso da Histérica interroga o saber estabelecido e impulsiona sua produção; e o do Analista cria condições para que o sujeito encontre sua verdade singular. Cada discurso revela que o sujeito é estruturalmente dividido e que toda organização ou laço social se constitui em torno de uma falta impossível de ser eliminada.
A contemporaneidade, entretanto, apresenta uma modificação significativa desses laços através do chamado discurso capitalista. Diferentemente das formas tradicionais de autoridade, o capitalismo não ordena diretamente; ele convida ao consumo, ao desempenho e ao gozo. Sob a promessa de realização pessoal e satisfação plena, oferece incessantemente objetos destinados a preencher aquilo que, sendo da estrutura do sujeito, permanece faltante. Gadgets, drogas, imagens, identidades e mercadorias são apresentados como soluções para o mal-estar, embora apenas alimentem um circuito contínuo de insatisfação e repetição.
A psicanálise demonstra que o desejo nasce justamente da falta e não pode ser definitivamente satisfeito por nenhum objeto. Quando a sociedade privilegia o consumo como resposta universal, observa-se o enfraquecimento dos laços sociais e a proliferação de sintomas característicos da modernidade: isolamento, violência, intolerância, segregação, compulsões e diferentes formas de sofrimento subjetivo.
Os chamados sintomas sociais revelam algo que ultrapassa as explicações sociológicas ou morais. A corrupção, o preconceito, a segregação e a violência podem ser observados como manifestações coletivas da dificuldade de lidar com a falta estrutural. Em vez de reconhecer os limites próprios da condição humana, busca-se frequentemente recobrir a falta por ideais de completude, consumo ou identificação grupal.
Nesse contexto, a psicanálise propõe uma ética distinta daquela sustentada pelos ideais de felicidade e adaptação social. Sua orientação não consiste em eliminar o sintoma, mas em abordá-lo como formação que carrega uma verdade sobre o sujeito. O sintoma deixa de ser apenas um sinal de doença e conflito para tornar-se uma invenção singular diante do impossível da existência.
Na última fase de seu ensino, Lacan (1975-1976) desenvolve o conceito de sinthoma para indicar precisamente essa dimensão criativa. Certos modos de fazer, escrever, criar ou produzir podem funcionar como soluções subjetivas capazes de organizar os gozos e permitir novas formas de inserção social. O sinthoma não elimina a falta, mas oferece uma maneira singular de habitá-la.
Diante dos impasses contemporâneos, a contribuição da psicanálise consiste em sustentar espaços de acolhimento que resistam à homogeneização promovida pelos discursos dominantes. Em vez de oferecer respostas universais, ela aposta na singularidade de cada sujeito e na possibilidade de transformar a repetição do sofrimento em produção de saber.
Falando em singularidade do sinthoma, aproveito a oportunidade para fazer uma homenagem ao colega Jacques Adam que nos legou, dentre muitas reflexões, o texto “La psychanalyse, pas la pensée unique”².
Referências Bibliográficas
ADAM, Jacques; SOLER, Colette et al. La psychanalyse, pas la pensée unique. Paris: Editions du Champ Lacanien, 2000.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.
LACAN, Jacques. (1975-1976). O Seminário, livro 23: o sinthome. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.
Junho, 2026.

