A clínica psicanalítica e o laço social hoje
O laço social hoje encontra-se profundamente determinado pelo discurso do capitalista. Como destaca Soler (2016), há um consenso de que vivemos sob uma ameaça permanente de desenlace, traduzida por afetos com tonalidades depressivas. Ela considera que tal ameaça traz consequências subjetivas: solidão, desencantamento, decepção, desconfiança, dentre outras. O psicanalista, porém, não deve se deixar fascinar por essas formas que o mal-estar adquire, pois seu interesse está voltado para a estrutura que as funda.
Freud (1930) perguntava-se como os corpos, constituídos pelo autoerotismo e o narcisismo, podem fazer laço, isto é, investir a libido em outros objetos. Tentou responder a essa questão colocando o amor como fundante do laço, mas se deparou com as forças disruptivas advindas da servidão voluntária a um Ideal do Eu, que inibem o pensamento e colocam os membros do grupo em identificações horizontais, com efeitos de rivalidade, agressividade e segregação.
Conforme Soler (2016), a indicação de Lacan a esse respeito é clara: o que retém os corpos é o aparelho de linguagem que impõe a todo ser falante uma perda de gozo, produzindo a falta-a-ser e o desejo. Esse mal-estar provoca a necessidade de regulação do gozo para que os corpos possam, para além da relação de vizinhança, fazer laço social. Como destaca Lacan (1974), são os discursos que efetuam essa regulação ao constituírem modos de tratar o real.
Entretanto, diferentemente dos outros discursos, o discurso do capitalista caracteriza-se pela foraclusão do laço social (Lacan, 1972). Ele escamoteia a falta real e tenta substituí-la pelos gadjets (Lacan, 1967). Isso furta o sujeito de uma mediação ao Outro, deixando o gozo sem limites. Sua divisão fica eclipsada pela noção de (in)divíduo, estado ideal perseguido incansavelmente na contemporaneidade. Por consequência, impera um estado crônico de apatia e uma precariedade do desejo, posto que o gozo singular do sujeito, que é desunificador, não encontra lugar neste discurso (Soler, 2016).
Em contrapartida, o discurso analítico coloca em jogo a singularidade, suprimida pelo discurso do capitalista (Askofare, 2021). Por isso, a resposta de analista constitui um “laço extra-ordinário” (sic) com a solidão radical marcada pelo “gozo fora de série” (Fingermann, 2016). Embora solitário, o ato analítico cria um laço social em que a solidão encontra seu limite, o que não se encontra em nenhuma outra modalidade de discurso (Soler, 2026). Ao promover um tipo de laço que inclui a singularidade, a psicanálise amplia as possibilidades de enlaçamento. Isso desperta múltiplas resistências, uma vez que a lógica de mercado depende do isolamento dos sujeitos e do consumo de objetos que prometem o gozo sem limites.
Como o psicanalista precisa estar à altura da subjetividade de sua época (Lacan 1953), torna-se crucial saber o que a psicanálise pode trazer de transformador nas configurações de laço social hoje. De que modo a psicanálise, que leva em conta o real, pode contribuir para tratar a fragilização dos laços sociais? Como sustentar uma clínica do desejo, tal como concebido pela psicanálise?
Advertidos de que o ser falante em sua singularidade não se confunde com a ilusão de (in)divíduo produzida na sociedade contemporânea, fica o convite ao trabalho!
Comissão Científica X Colóquio EPFCL-RDB
Referências Bibliográficas
ASKOFARE, S. (2021). La psychanalyse à l’épreuve de la différence/des différences (II). Trivium, Rio de Janeiro, v. 13, n. spe, p. 12-16, mar. 2021.
FINGERMANN, D. (2016). Clínica Psicanalítica: Laços e Desenlaces. Stylus (Rio J.), Rio de Janeiro, n. 32, p. 7-9, jun. 2016.
FREUD, S. (1930). O mal-estar na civilização. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1976, vol. XXI, pp. 81-174.
LACAN, J. (1953). Função e Campo da fala e da linguagem em psicanálise. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, pp. 238-324.
LACAN, J. (1967). Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, pp. 248-264.
LACAN, J. (1972). Du discours psychanalytique: discours de Jacques Lacan à l’Université de Milan le 12 mai 1972, paru dans l’ouvrage bilingue. In Lacan in Italia (1953-1978). Milan: La Salamandra, 1978, pp. 32-55.
LACAN, J. (1974). Televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993.
SOLER, C. O que faz laço. São Paulo: Editora Escuta, 2016.
SOLER, C. Seminario Escuela “La soledad del acto. Estar solo y la Escuela”. Tarragona: FFCLE F8 Federación Foros España.
Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=aF5rIT3TlrE. Acesso em 28 abr. 2026.




