PRELÚDIO VI
Lá onde o sujeito não pensa, ele escolhe;
lá onde ele pensa é determinado.
Lacan
O que se espera do sintoma no final de análise? Des(a)tinos?
Na mitologia, “o destino é uma divindade cega, inexorável, nascida da Noite e do Caos” [2]. O Caos – abismo insondável –, indescritível e indefinível, gerou a Noite, que gerou o inflexível Destino. Coube aos oráculos entrever e revelar o que estava escrito no livro do Destino, mas sem o poder de alterar nada. Freud ilustra o destino com o exemplo princepsdo Édipo. Mesmo advertido pelo oráculo, Édipo matou o pai e possuiu o objeto do desejo e da lei. Por ter arrancado os olhos, ele perdeu a visão, no entanto não deixou “de vê-los como tais, como o objeto-causa enfim desvelado da concupiscência derradeira, suprema, não culpada, mas fora dos limites – a de ter querido saber” [3]. De que forma o sujeito em análise pode passar do destino do sintoma que o determina ao des(a)tino de sua escolha? Na constituição do sujeito, “a alienação é o destino ligado à fala. Mas a separação não é destino. […] a separação requer que o sujeito ‘queira’ se separar da cadeia significante” [4]. O sujeito recusa-se a funcionar como causa do desejo do Outro, esse Outro no qual “não se vê mais do que como destino, porém um destino que não tem fim, um destino que se perde no oceano das histórias” [5].
Retorno a Freud, quando concebe o sintoma como resultado de uma eventualidade da história na qual o sujeito era acometido de algo, inassimilável, que lhe vinha de fora – o trauma. Lacan define o sintoma como representante de um evento traumático de alíngua, de fantasias resultantes de coisas ouvidas na infância, substitutas de uma satisfação pulsional. “São as pulsões no corpo o eco do fato de que há um dizer […] é preciso que o corpo lhe seja sensível” [6].
Desconhecido para o próprio sujeito, o sintoma, ao mesmo tempo que causa sofrimento, expressa a realização de um desejo, pois resulta de um modo de gozar do sujeito.
O não saber que se revela no sintoma e em outras formações do inconsciente conduziu Freud a elaborar a hipótese sobre o inconsciente, asseverando que este é a verdadeira realidade psíquica. Segundo Lacan, “o inconsciente é estruturado como linguagem nos efeitos de alíngua, que já estão lá como saber, vão bem além de tudo que o ser que fala é suscetível de enunciar” [7].
Lacan afirma que “o inconsciente, sempre até então situado como simbólico, é… real” [8]. O inconsciente, definido como “saber sem sujeito”, fuxica a verdade no espaço da “hystorização” – história e histeria – do sujeito. É nesse espaço do dar sentido ao sintoma que o inconsciente fuxica “a miragem da verdade, da qual só se pode esperar a mentira” [9]. Da função do real ao inconsciente real, ou seja, do sujeito suposto – sujeito do saber decifrado em linguagem – ao sujeito real – sujeito cifrado ao saber de alíngua –, há uma passagem da verdade como semidizer ao sentido irredutível, cifrado. Há uma oposição entre o real e o significante. O significante “é aquilo que salta com a intervenção do real. O real remete o sujeito ao traço e, ao mesmo tempo, abole também o sujeito, pois só há sujeito através do significante, da passagem para o significante” [10].
No discurso analítico, o saber ocupa o lugar da verdade, mas a verdade é impotente para se dizer, restando apenas o semidizer na fala analisante. Assim, quanto mais a verdade se articula, fazendo surgir o sentido do sintoma, mais o inconsciente saber se afigura real. O encontro com o real é essencialmente faltoso: apresenta-se na forma do trauma, no que há de inassimilável.
O sujeito, sob transferência, endereça sua fala ao analista. Quando o espaço da hystorização não tem mais nenhum impacto de sentido, o sintoma está disjunto de toda verdade subjetiva; o sintoma é real e, portanto, fora da transferência. É o momento da destituição do sujeito suposto saber, ou seja, uma passagem ao inconsciente real.
Sem nenhum impacto de sentido, o sintoma é, então, reduzido a seu núcleo neológico – des(a)tino –, momento em que o sujeito deixa de fazer da fixação do sintoma a causa de seu recurso ao Outro – destino.
Referências Bibliográficas
LACAN, J. Prefácio à edição inglesa do Seminário 11. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
O Seminário – livro 10: a angústia(1962 – 1963). Versão brasileira Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
O Seminário – livro 20: mais ainda (1972-1973). Rio de Janeiro: Zahar, 1982.
PUGLIESI, M. Mitologia Greco-Romana – Arquétipos dos Deuses e Heróis. Madras Editora Ltda, 2003.
SOLER, C. Lacan, o inconsciente reinventado. Rio de Janeiro: Cia. de Freud, 2012.
O sujeito e o Outro I. In: FELDSTEIN, R.; FINK, B.; JAANUS, M. (Org.). Para ler seminário 11 de Lacan. Tradução Dulce Duque Estrada. Rio de Janeiro: Zahar, 1997a.
p. 52-57.
[1][1][1] Psicanalista em Natal, Membro da EPFCL, Membro da IF-EPFCL Fórum Nacional Rede Diagonal Brasil. Mestre em Psicologia/UFC.
[2] PUGLIESI, 2003, p.37.
[3] LACAN, 1962-1963, p. 181.
[4] SOLER, 1997, p. 62.
[5] LACAN, 1962-1963, p. 56.
[6] LACAN, 1975/1976, p.18.
[7] LACAN, 1972-1973 p.190.
[8] SOLER, 2012, p.13.
[9] LACAN, 2003, p.568.
[10] LACAN, 1962-1963, p. 168.
