V Colóquio FCLRDB
Prelúdio III
Ângela Mucida
“Deixar cair o corpo”.
Deixar cair o corpo ou “deixar cair a relação com o corpo próprio”é uma frase de Lacan em O sinthoma (2007, p. 166) referindo-se ao relato de Joyce ao levar uma surra dos colegas (Joyce, 1992). Não há raiva, rancor, sensação de dor, nada esperado sob tal condição, mas apenas a sensação de um corpo soltando-se como uma casca. Lacan lê nesse episódio um deslizamento imaginário sem a consistência necessária que permita a Joyce ter o sentimento de pertencer a um corpo. Algo desliza para fora da cena. Na mesma obra, Um retrato do artista quando jovem (1992, p. 57), Joyce relata experiências semelhantes onde surge a mesma sensação de corpo volátil, “como uma folha exposta ao fogo” ou “como uma folha solta no ar”. Joyce deixa cair o corpo de maneira suspeita para um analista, afirma Lacan, “(…) pois a idéia de si como corpo tem um peso.” (2007, p.145).
Essa relação peculiar com o corpo não passou despercebida a Freud. Ao diferenciar o luto da melancolia ele destaca que nesta a “sombra do objeto recai sobre o eu”, identificação absoluta ao objeto perdido, portanto esvaecimento do corpo. Em “O homem dos lobos”o corpo cai diante da visão do dedo cortado. No caso da jovem homossexual Freud coloca duas hipóteses do corpo que cai na passagem ao ato: ou o sujeito age assim para matar o objeto com o qual se identificou ou volta para si o desejo de morte dirigido ao Outro. (Freud, 1920/1969, p. 174). Quatro formas de “deixar cair o corpo” que não se igualam, pois os corpos não caem da mesma forma, mas definem uma relação problemática com o sentimento de ter um corpo.
As pistas deixadas por Joyce levam Lacan a destacar pelo menos três questões que se imbricam e com efeitos sobre o fazer do analista: – o que é ter um corpo, como sustentá-lo e como saber fazer algo com ele. Joyce não tinha esse sentimento de ter um corpo, corpo suportado por uma imagem de si, mas soube se virar com ele pelo artifício de sua escrita e a publicação. Ele cria um ego, um nome, uma marca singular a ser lembrada, corrigindo assim o erro no enodamento do imaginário com o real e simbólico. Joyce inventou um sinthoma, como acontecimento de ego, sintoma não analisável, mas que se torna um tratamento ao Real.
Existem outras formas contemporâneas de “deixar cair o corpo”. Detenho-me nas tentativas de suicídio ou sua consecução, sobretudo entre jovens, que se jogam de lugares altos; prédios, viadutos, pontes, sob o olhar do Outro que vê. Completando ou descompletando a cena? Para Lacan o suicida quer sair da cadeia significante que o determina mas, quando morre, torna-se um signo eterno da cadeia. (Seminário 5, p.254). Isso ressoa com uma indicação de “A terceira”onde a angústia é definida como o sentimento de ver-se reduzido ao corpo. Ser reduzido ao corpo, ser o corpo, ao invés de ter um corpo, é tornar-se corpo signo, corpo real sem o laço com a corpsificação do simbólico, o impossível do real e a consistência do imaginário.
Mas os atos suicidas não se igualam e nem se reduzem às psicoses. Nos casos em questão alguns sujeitos o anunciam previamente por meio de mensagens ou em redes sociais, sem que nada o detenha. Em 2015 o mundo não pode deixar de ver a cena de um jovem co-piloto alemão suicidar-se levando nesse ato 150 passageiros. A visibilidade tão em voga na contemporaneidade encontra-se presente em muitos casos de suicídio. Não se morre tão só! Apesar da singularidade de cada ato, esses atos escancaram um resto inassimilável pelo discurso do capitalista, fora de qualquer medida de satisfação do mercado. Eles demonstram que muitos dos tratamentos dados ao corpo deixam de fora a questão do que fazer com ele.
Em muitos dos casos de jovens que tenho recebido em análise com tentativas de auto-extermínio, apesar da queixa de um vazio existencial insuportável, encontram-se de fato empanturrados de objetos. Empanturrados, sem o vazio onde o desejo possa circular, angustiados, reduzidos ao corpo signo, alguns tentam encontrar algo de si nesse derradeiro ato de corte.
Se, “Só se é responsável na medida de seu savoir-faire” (Lacan, 2007, p. 59) e se a psicanálise trabalha exatamente no sentido dessa responsabilidade, o que pode o analista diante dessas maneiras de dispor do corpo? O que se pode extrair desse “ato falho bem sucedido”(Lacan, Seminário. A identificação, 1961-62), sem restos para quem o executa, mas que demanda, ao mesmo tempo, a presença do Outro?
Ângela Mucida- Psicanalista, Doutora em Psicologia/ Psicanálise, AME da EPFCL, FCL Rede Diagonal Brasil- Belo Horizonte
Referências bibliográficas
Freud, S .Luto e melancolia (1917). In E.S.B. Rio de Janeiro: Imago, 1974.
———–. A jovem homossexual ( 1920). In : E.S.B. Rio de Janeiro: Imago, 1969
Joyce, J. Um retrato do artista quando jovem. São Paulo: Siciliano, 1992.
Lacan, J. L’identification.( 1961-1962) Seminário inédito, In: http://www.valas.fr.
———- Joyce le symptôme. In Autres écrits Paris: Éditions du Seuil. 2001
———- O Seminário. Livro 23: O sinthoma ( 1975-1976). Rio de Janeiro: Zahar, 2007.
———- (2005). O Seminário. Livro 10. A angústia. (1962-63).Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
———-. La Troisième (1974). In: http://www.valas.fr.







